Do inútil (ao fútil)

“O fútil, porque está tão aquém de nossa melhor dedicação, deixa entrever a existência de algo que é seu oposto absoluto

Pode soar irônico, até contraditório; mas a arte ganhou o direito de usar sua inicial em letra capital pelo mesmo gesto que a declarou inútil. De habilidade técnica, ascendeu aos poucos à categoria de dom divino, simplesmente porque não servia mais a agradar, produzir emoções, representar as divindades. Como seu trabalho não serve a propósito algum, o artesão foi sagrado artista, como por mágica.

E está certo. Aliás, certíssimo. Ainda hoje podemos designar à arte uma infinidade de funções ou utilidades. Podemos perfeitamente ver nela muito de educativo, político, catártico, psicológico e assim por diante. Embora o ser humano ainda seja incapaz de viver sem um mínimo que seja de arte, ela é, sim, inútil. Da maneira como passamos a concebê-la depois de Kant, a inutilidade é o que há de mais profundamente artístico. Graças à falta de serventia, a arte é arte, e não propaganda, manual, análise, teoria.

Em conseqüência, quando vemos utilidade na arte ou arte na utilidade, só podemos concluir que é porque uma contaminou a outra. Talvez a ponto de se tornarem inseparáveis, que seja, ou de se potencializarem mutuamente. Mas o elemento propriamente artístico, precisamos ter sempre em mente, é inútil e ponto final.”
Diego Viana, Le Monde Diplomatique
Artigo Completo, ::Aqui::

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