A Cortina, de Milan Kundera

"Ler A Cortina é fazer uma visita privilegiada ao ateliê de Milan Kundera: a mesa de trabalho desfeita, as notas e papéis acumulados, cinzas, rascunhos, o declínio da tarde. O artista está cansado e se repete, revisita suas próprias idéias ao fim da vida: a originalidade só tem a si mesmo a copiar. Mas ao contrário dos deslumbrantes A arte do Romance e Os testamentos traídos, no modesto A Cortina o que impera é o tom memorialístico: Kundera fala de seus livros favoritos, homenageia seus mortos, reinvidica sua genealogia. E aí reside o interesse do pequeno tomo, seu grande questionamento: até que ponto escrever é reorganizar a história de uma cultura? Até onde a leitura do escritor subverte e redimensiona a leitura social, a leitura institucional, a leitura nacional? Kundera, por ser o escritor que é, não dá as respostas. Só os escritores ruins têm respostas; a sabedoria, não só na literatura, encontra morada nas perguntas.

No mundo de Kundera, e esse mundo é romanesco, os grandes patronos são Rabelais e Cervantes. Em A Cortina um percurso longo é traçado, em que um escritor descobre outro véu onde seu predecessor havia imaginado ter encontrado o fundo negro de sua busca: de Rabelais a Fielding, passando por Balzac e Flaubert, o manancial de Proust, o mundo como coisa pensada em Musil, as vozes em Faulkner. Por todo livro há uma reinvidicação do conhecimento da história, não como uma forma de comprovar o feio e notório fato de que livros nascem de livros, mas como um subversivo elemento desestabilizador do nacional: em várias ocasiões Kundera mostra como é o estrangeiro que vai compreender o legado que muitas vezes um país deixa escapar, ou têm como gratuito ou pouco importante.”
Vinicius Jatobá, Terra Magazine
Artigo Completo, ::Aqui::

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