A literatura em perigo

Luiz Rebinski Junior, Digestivo Cultural

“No ensaio "Dentro da Baleia", publicado no livro de mesmo nome, George Orwell, ao comentar sobre a produção literária do início do século XX, diz que "nos círculos cultos [da Inglaterra], a arte pela arte se estendeu praticamente a uma adoração do sem sentido. Julgar um livro pelo assunto era um pecado imperdoável, e mesmo estar ciente desse assunto era considerado um deslize de bom gosto".

Além de escritor de ficção, Orwell foi também um sagaz resenhista, que não poupava seus pares na hora de tecer críticas. O que Orwell na verdade reclama em grande parte do texto, que é dedicado à análise de Trópico de Câncer, de Henry Miller, é de como as inovações técnicas que floresciam na literatura de então (com nomes como James Joyce) limitavam o diálogo das obras com o mundo real e com os problemas imediatos da sociedade. Ou, conforme Orwell escreve, de "como as inovações técnicas, ainda que importantes, estão presentes primeiramente para servir a esse propósito".

Entre outros assuntos, é disso que trata A literatura em perigo (Difel, 2009, 96 págs.), mais recente livro do historiador e ensaísta búlgaro Tzvetan Todorov. Em uma linguagem que mistura reminiscências pessoais do autor à sua experiência como professor nas universidades e escolas da França, onde vive desde os anos 1960, o ensaio não agrada apenas por passear por clássicos da literatura. A "arte pela arte", que tanto incomodava Orwell lá nos anos 1940, é o ponto central do ensaio de Todorov, que, diferentemente de Orwell, direciona suas críticas não aos escritores, mas a professores e universidades que preferem ensinar métodos literários ao invés de focar seus esforços em aproximar o estudante das obras literárias.

Em uma crítica ao estruturalismo e às correntes formalistas que se tornaram moda nos anos 1970 e que acabaram se impondo como modelo dominante do ensino da literatura, o ensaio de Todorov se opõe à prática de ensino em que os "estudos literários têm como objetivo primeiro o de nos fazer conhecer os instrumentos dos quais se servem e não o contrário". Ou seja, as formulações críticas e apreciações analíticas dos especialistas, críticos e professores se sobrepõem à própria significação das obras e de como elas dialogam com a vida real.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Enviar Google Plus

About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

Contato- nogueirajr@folha.com.br
Revista- WMB

    Blogger Comment
    Facebook Comment

1 comentários:

James disse...

Acordo com muito disso - parece que muito do passado está em perigo. Infelizmente, a nossa sociedade não valoriza a literatura como antes: zonabrasilblog.blogspot.com