Lula e a Rainha num bar sujo do centro

Rodrigo Manzano, Portal IMPRENSA

“Na esquina das ruas Rego Freitas e Major Sertório, próximo da sede de IMPRENSA, há um bar onde, freqüentemente, compro cigarros. Hoje, no mesmo horário de sempre, e atendido sempre pelo mesmo caixa, presenciei a conversa entre um freqüentador e um balconista sobre o encontro do G20. Chamaram a atenção deles tanto a irreverente deferência com que Obama tratou a Lula quanto a imagem, reproduzida pelos jornais, da foto oficial do encontro, em que Lula se senta ao lado da Rainha Elizabeth, da Inglaterra. Ambos estavam orgulhosos do presidente.

Desde criança, sempre nutri uma estranha afeição à realeza britânica, em especial à rainha. Sua imagem, não sei porquê, tem a capacidade de me prender por alguns instantes. Guardei essa relação sempre com alguma reserva - me parecia, de alguma forma, anacrônico, ultrapassado e subserviente admirar uma figura que remonta aos modelos autoritários de poder, como a monarquia. Há poucos anos, eu e Mercedes Stéfani, minha professora de filosofia no ensino médio, conversávamos sobre a Rainha. Ela confessou a mim sua admiração pela monarca e revelava, para o meu espanto, ter guardado, durante muitos anos, recortes de jornais e revistas sobre a rainha, além daquelas antigas edições de Manchete que davam capa para ela ou para outras realezas. A admiração de Mercedes, ela mesma uma iluminista em suas convicções, endossou a minha própria admiração secreta, e, a partir de então, passei a confessar a simpatia pela Rainha sem o mesmo constrangimento de antes. Falávamos, naquele encontro, do poder simbólico que emana da tradição e todas essas bobagens que apenas desocupados num sábado à tarde podem se dar ao luxo.

Num primeiro momento, poderíamos interpretar Lula como sendo o oposto de Elizabeth. Ela, rainha por investidura, fruto de uma linhagem que remonta, indiretamente, ao século VII, com ramificações em todos os Estados europeus. Ele, para começar, brasileiro, migrante sertanejo, pobre, operário, sindicalista e de esquerda. Ela, segundo seu título oficial, "Elizabeth II, pela Graça de Deus, do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e de Seus outros Reinos e Territórios Rainha, Chefe da Comunidade Britânica das Nações, Defensora da Fé". Ele, um Silva, apenas. Lado a lado, seriam a melhor imagem de um paradoxo. Mas não.

Logo depois da confissão mútua entre mim e Mercedes, fui a Londres a trabalho. Nas horas vagas, queria entender um pouco melhor o repertório simbólico que emana da realeza. Para isso, sentei-me uma tarde diante do Palácio de Buckingham, nos degraus do Victoria Memorial e observei, durante algumas horas, a reação das pessoas em frente à casa real. Um olho no povo, outro na janela, nada me retirava a inútil esperança que Elizabeth fosse na sacada verificar, por exemplo, o tempo, àquela altura na casa dos 5o C. Não vi a rainha, mas, conforta-me, cheguei perto. Tampouco já vi Lula, mas também cheguei perto. Algum tempo depois, repetiria o gesto em frente ao Palácio da Alvorada, com suas dezenas de metros de separação entre a fachada e a grade. As duas experiências me pareceram muito semelhantes. Tanto quanto, a mim, Lula e Elizabeth, apesar das diferenças, parecem representar algo muito parecido aos seus povos. Ambos são, e cada um a sua maneira, signos identitários de seus povos. A Rainha, por vocação. Lula, por mérito.”
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