13 de maio de 2009

Urariano Mota

“No café da manhã, minha mulher lembrou que hoje é treze de maio. Não fosse a sua lembrança, eu não escreveria esta crônica.

Os primeiros trezes de maio, que lembro em mistura aos goles do café, me vêm do Ginásio Ipiranga na infância. Olho para o lado agora como se nada visse, assim como os colegas negros em 1961 olhavam de lado, ou baixavam os olhos, ao ouvirem a lição lida em voz alta no livro didático:

"ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO - A escravidão negra foi introduzida no Brasil em 1550. Não tendo os portugueses conseguido escravizar os índios para obrigá-los a trabalhar na lavoura, resolveram utilizar negros africanos nessa tarefa...".

E mais adiante, todos haviam que decorar a resposta certa da pergunta no questionário: - Por que foi introduzida a escravidão negra no Brasil? - Ora, respondíamos todos, negros, brancos e mulatos, "porque os portugueses não conseguiram escravizar os índios para obrigá-los a trabalhar nas lavouras".

O espaço daquele aprendizado era um círculo fechado, redundante: os índios não quiseram trabalhar como escravos, daí que a solução foi importar negros da África. E, naturalmente, os negros foram escravizados porque os índios eram rebeldes. Então, para dar substância ao círculo, era ensinado que os negros vinham, mansos, passivos, cordatos, porque assim era a sua natureza, ser negro e escravo em uma só pessoa. Então os meus antigos colegas olhavam de lado.”
Artigo Completo, ::Aqui::
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