(Nada) Respeitável público

Paulo Nassar, Terra Magazine

“George Orwell escreveu em 1948 seu famoso "1984", ainda no clima das ideias e ações dos "ismos" dos ditadores da década entre 1930 e 1940, Stalin, Hitler e Mussolini. A ficção de Orwell narra um mundo administrado por meio de câmeras, que escondidas, olham as ruas e as casas, verificam minuciosamente o que acontece nas camas e nas mesas e alimentam de informações um Estado feroz, que invade a intimidade e a comensalidade de seus habitantes. As lentes governamentais procuram detectar os cidadãos que não se enquadram nos padrões estabelecidos para fazer de todos servidores do Estado.

Em 2009 chegamos ao "1984". Mas o toque de recolher não se realizou com o clarim, mas por um vírus com nome de senha, "Influenza A (H1N1)" e codinome de bicho. As recomendações inquestionáveis vêm de especialistas de jaleco branco, legitimadas por vastos currículos. As ordens secas, goela abaixo, explicitam as boas intenções, a responsabilidade social de quem quer salvar as crianças, os velhos, os obesos, os desavisados.

A comunicação, com tom de manual e linguagem didática, orienta a lavar as mãos muito bem várias vezes ao dia, ficar longe do outro, evitar os apertos de mãos e os beijos. As cidades se transformaram em grandes enfermarias e procura-se remediar a falência da estrutura e da política de saúde pública: hospitais sucateados e gestão sofrível, médicos e paramédicos mal-pagos, quase sempre humilhados e desqualificados na atividade de servidores públicos.
Em nosso "2090" como Orwell, a data invertida em razão da pressão de seus editores, a sociedade elege como inimigos a comida, o sexo, o afeto e a festa.”
Artigo Completo, ::Aqui::
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