Infância

Amilcar Bettega, Terra Magazine

“Nós éramos crianças e orgulhosos das nossas arminhas de chumbinho. Cada feliz brincadeira de nossos dias longos era, sem que soubéssemos, intensa e definitiva como um passo iniciático. Caçávamos passarinhos. Joões-de-barro, sabiás, bem-te-vis e tico-ticos abundavam naqueles lados de laranjeiras enormes, pereiras magníficas, macieiras, pessegueiros, e eucalipto e campo, um campo interminável, que nos isolava e protegia, como a cândidos reis infantis.

Foi um passarinho de estrutura doce e frágil, cujo nome nunca nos foi dado saber. Depois a chamamos de pombinha, talvez pelo branco incomum, quase um milagre naquele mundo de telúricos pássaros marrons; talvez pela brandura dos movimentos, que nos pareceram inequivocamente femininos; chamamos de pombinha porque nunca soubemos, de fato, que espécie de ave era aquela, tão pequena e tão diferente e que depois de tudo, e por muito tempo, ainda nos fez cogitar, na solidão escura de nossos quartos de dormir, que nem ave era, algum espírito disfarçado, uma coisa sagrada, e que nos vigiava o sono. Mas chamamos de pombinha, sobretudo, porque precisávamos de um nome, precisávamos contar, aos outros e a nós mesmos, nas histórias que sempre voltavam quando nos reuníamos, a experiência que foi caçar a pombinha.

Foi vista num relance por um de nós, e antes que todos a víssemos, vimos os galhos secos do pessegueiro que se agitaram num tremor repentino, como se uma pedra pelo meio deles caísse. E ainda assim, e já ela vista em seu vôo branco de alegres asas lépidas, algum de nós insistiu que se tratava de uma borboleta, esses fúteis pássaros de papel que saem do sonho de sestas indolentes, pulando no ar como se vivessem um desenho animado. Não era borboleta, era a pombinha, com corpo e vôo bem mais exato, feita de sangue e carne, o que a tornava, de pronto, coisa viva e real, maior e mais grave do que mil borboletas desabaladas. "Borboleta nada", dissemos nós, meninos com sedes de aventura, ou realidade, ou o nome que se dê a essa gana de ser crescido.

Os primeiros três ou quatro tiros dissiparam-se em ecos aflitos, no infinito: não éramos tão bons quanto pensávamos. Costumávamos treinar em alvos fixos: as latas e tampinhas de garrafa. Ou então em sanhaços gordos e sonolentos da fartura das laranjeiras. Mas nada, nada como ouvir o rude bater de uma asa, o remexer frenético nas folhas, descobrir na placidez monótona da árvore o lugar exato de onde vem aquele movimento; essas coisas todas nos aproximavam de uma verdade quase táctil, sentíamo-nos vertiginosos, o sangue correndo mais ligeiro no corpo, o coração gritando na axila, no ombro que sujeita o cabo da espingarda, que pula, como se ela própria, a tirana, quisesse sozinha fazer o serviço.”
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