Os desajustados

Elisa Andrade Buzzo, Digestivo Cultural

"Uma das características do centro da cidade que me faz amá-lo é a sua vocação para a preservação da história, do usado e do desgastado, do sentimento religioso que emana de suas incontáveis igrejas e imagens sacras. Assim como seu pendor em acolher os mulambentos, os solitários e toda sorte de desajustados, sem fazer troça deles, ofertando um banco um recosto, apenas querendo-os, seja desinteressada ou monetariamente, como um livro usado a espera da benquerença de um leitor afeito à garimpagem. Vamos passear por sebos e livrarias do centro de São Paulo.

Não é necessário se assustar, nem desmerecer a "cidade", como nossos pais a chamavam no tempo dos bons sapatos e das lojas de departamento. Ainda que nos debrucemos sobre um chão desgastado, cravado de escória, batido por um batalhão de trabalhadores e vagabundos, lá é o âmago vital do plexo urbano. De modo que quando aporto no centro repetidas vezes me pergunto como posso não vivenciar a sua história todos os dias, fazer parte de sua movimentação incessante, dar minha contribuição, nem que seja pela singeleza de um sorriso, um esgar, caminhar lado a lado com o fato.

E se o centro é a casa da diversidade, do acolhimento de todas as classes sociais e religiões, das pregações assustadoras no Marco Zero e no Patriarca, lá também há uma concentração de sebos e livrarias, sobretudo as religiosas. A Paulus e a Loyola se estendem próximas à Catedral da Sé, na Quintino, Senador Feijó, e na Barão de Itapetininga, não só com artigos religiosos - terços, imagens domésticas, santinhos, livretos -, mas também com muitos livros de religião, como não poderia deixar de ser, filosofia, escolares e algo de literatura também. Um ecletismo que causa um leve estranhamento, a constante abordagem dos vendedores prestativos, logo mostra que, ao deslizar-se pelo piso de azulejos, pode-se encontrar muito.

As Livrarias Saraiva da Rua São Bento e da João Mendes destacam os livros de interesse geral, os livros espíritas e de Direito, prova de que naquele mundo central se está perto de gente que se interessa por assuntos díspares, e advogados, pela concentração de escritórios e da Faculdade de Direito no Largo de São Francisco. Já a Livraria da Unesp fica no térreo do Palacete São Paulo, o segundo prédio a ser construído na Praça da Sé, e mantém um bom acervo de História e Ciências Humanas. A Martins Fontes na Praça do Patriarca é calma, ampla e, com considerável acervo, constitui-se numa referência na região.”
Foto: Sissy Eiko
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