Memória das garras do condor

“Livro sobre o seqüestro de dois uruguaios há 30 anos revive os duros tempos da caça à esquerda no continente

Era uma vez, nos tempos da repressão, um apartamento em Porto Alegre e, dentro dele, duas armadilhas. A primeira delas, montada por quatro ou cinco fiéis servidores das ditaduras brasileira e uruguaia que aguardavam ao lado de sua isca - a própria dona da casa, a militante esquerdista Lilian Celiberti - a chegada de um chefão da resistência uruguaia. A idéia era prendê-lo e levá-lo imediatamente a Montevidéu. A segunda era o truque tentado por Lilian no telefonema para marcar o encontro. Ela passou a senha combinada, uma palavra crucial para que o outro lado entendesse que ela estava sob domínio do inimigo. "Não venha", significava o convite.

Deu certo. O chefão não foi. Mas eis que soa a campainha, Lilian vai abrir... e são dois jornalistas! Um experiente repórter e seu fotógrafo, trabalhando para uma grande editora de São Paulo. Pior que isso: o repórter conhecia a dona da casa.

Era uma sexta-feira, 17 de novembro de 1978. Assim que foi encostado um revólver na testa do repórter, no apartamento 110 da Rua Botafogo, 621, começou um interminável jogo de gato e rato entre democracia e ditadura na América Latina. Lilian e um colega de militância, Universindo Diaz, sumiram na fronteira e foram penar nas masmorras do Uruguai. O repórter que tocou a campainha e logo foi liberado, o gaúcho Luiz Cláudio Cunha, chefe da sucursal da revista Veja em Porto Alegre, embrenhou-se por todas as pistas, fez um dublê de jornalista e personagem do caso e por fim toda a grande imprensa entrou na história. Além do sumiço de Lilian e Universindo - e com eles dois filhos menores - o episódio deixava uma pergunta no ar: por que o Brasil abria mão de sua soberania e deixava policiais de outro país entrar em seu território para seqüestrar pessoas que estavam sob proteção de suas leis?”
Gabriel Manzano Filho, O Estado de São Paulo
Matéria Completa, ::Aqui::

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