03 Fevereiro, 2012

Sim. Deus existe

Denise Rossi, Revista Bula

“Crer ou não crer eis a questão? Meu amigo, até mesmo a descrença é uma forma de crença. Quando instalamos nossas bases em terrenos instáveis como o da fé, estamos enveredando por um caminho muitas vezes obscuro, que, em muitos casos, não tarda em flertar com o fundamentalismo. Esteja ele voltado ao teísmo ou ao ateísmo. 

Nasci em família espírita (não confundir com as religiões afro-brasileiras). Aos 14 anos impliquei com minha mãe que queria que eu fizesse primeira comunhão. E fiz. No catecismo, não concordava com nada do que a professora dizia, mas não a aborrecia. Chegou o dia da cerimônia e carreguei toda feliz a minha vela e confessei ao padre, muito envergonhada, os meus pecados de moça pura. Eu queria ser aceita no meu grupo social de maioria católica. Foi quando percebi que a religião era uma forma de sociabilização. 

Um pouco mais adiante, me converti ao Universalismo Estelar. Uma religião que eu mesma inventei. Sou fundadora, pastora e única fiel. Infelizmente, dileto leitor, mesmo que você se interesse por essa religião, o único dogma que ela carrega é permanecer para sempre individualizada em mim. Não haverá outros fiéis que não eu mesma. A espiritualidade é algo muito singular. 

No Universalismo Estelar não há outra compreensão do mundo que não o pensar e a lógica. Evidências empíricas são muito bem vindas, mas nunca analisadas de forma derradeira. Há sempre mais a aprender. Sentada em meu altar, envolta por livros, um dia me deparei com a causalidade. A relação entre causa e efeito e tudo o que envolve a sua inteligibilidade. Desde então, adotei certas posturas quanto às visões ateístas e teístas. 

Deus, para o Universalismo Estelar, é a causa primeira. Como o ônus da prova é de quem acusa, convido o leitor a pensar comigo. Veja, se todo efeito possui uma causa, qual seria a causa do Universo? Poderíamos responder “deus”. Muitos ateus perguntariam: “Mas qual a causa de deus?”, para o que a resposta seria: todo efeito tem uma causa e não toda causa tem uma causa. Partindo desse princípio, poderíamos vislumbrar uma série de características para esse “deus”, tais como: atemporal, eterno, inteligente. Quanto à questão da inteligência, como acreditar que todos os processos físicos e químicos do universo, a complexidade dos corpos, seus pormenores funcionais, a gravidade, os astros e tudo mais que nos circunda, foram todos decorrentes de um acaso, ou da sorte? “Sorte” essa que faz do processo universal um exemplo de sucesso há pelo menos 13,7 bilhões de anos. Seria preciso muita fé.”
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02 Fevereiro, 2012

Clint Eastwood decepciona em novo filme

Guilherme Bryan, Rede Brasil Atual

“Nem todos os trabalhos na filmografia dos mestres do cinema são obras-primas que merecem ser reverenciadas. Com o cineasta e ator norte-americano Clint Eastwood, de 81 anos, não é diferente. Diretor dos hoje clássicos “Os Imperdoáveis”, “Menina de Ouro”, “As Pontes de Madison”, “Sobre Meninos e Lobos” e “Cartas de Iwo Jima”, entre outros, ele também é capaz de realizar filmes insossos como “J. Edgar”, que estreia nessa sexta-feira, 27 de janeiro, nos cinemas brasileiros.

Com elenco estelar formado por Leonardo Di Caprio, Naomi Watts, Armie Hammer e Judi Dench, “J. Edgar” narra a história de J. Edgar Hoover, que foi chefe do F.B.I. (Federal Bureau of Investigation), por quase 50 anos, mantendo relações muito próximas com oito presidentes norte-americanos, atuando durante três guerras e fazendo uma luta cirrada contra os comunistas. Com alguns métodos extremamente truculentos e antiéticos, ele não demonstrava escrúpulos para defender seus segredos; atingir seus objetivos, mesmo manipulando documentos para ser mais do que de fato é; e manter a reputação, inclusive evitando uma possível homossexualidade, algo totalmente repudiado pela mãe.

Durante toda a vida, J. Edgar manteve ao seu lado apenas três pessoas. A mãe, a secretária Helen Gandy e o colega Clyde Tolson. O filme começa com J. Edgar, já idoso, ditando suas memórias para um rapaz. A partir daí, toda a história é narrada com idas e voltas no tempo, sendo o fato mais antigo o momento em que ele tinha cerca de 20 anos e começou a trabalhar com o que era apenas um Departamento de Investigação, criando algo que chegou a ser comparado a Gestapo.”
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01 Fevereiro, 2012

Tebow e Fé

Daniel Bushatsky, Digestivo Cultural

“Não é fácil prometer fé, esperança e amor, muito menos se comprometer mundialmente com estes símbolos e os significados que eles trazem em países pobres ou para pessoas carentes, mas é justamente isto que Tim Tebow anuncia em seu site. Às vezes a ajuda será monetária, às vezes será através da realização do sonho de uma criança doente. O grande sonho, em geral, é conhecer seu maior ídolo, que somente poderia ser Tim Tebow.

Para quem não sabe, Tebow é um dos jogadores de futebol americano mais admirados dos Estados Unidos, atuando na importante posição de quarterback, com muito destaque, colecionando elogios e prêmios.

Ele não é somente famoso pelo jeito bonitão ou por suas jogadas fantásticas, mas também pela famosa entrada em campo, rezando para que Jesus o proteja, bem como com seus números (estatísticas) que se assemelham a passagens bíblicas (a mais citada é João 3:16, após ele dar um passe de 316 yards — uma distância considerável).

Tebow é para alguns o representante de Deus na terra e nas palavras de Bryan Fischer, da Associação da Família Americana, odiá-lo é como odiar Jesus, pois "Jesus Cristo vive em Tebow".

A dúvida sobre sua divindade cresceu nos Estados Unidos da América quando o Broncos, time de Denver, Colorado, perdeu o jogo e foi desclassificado do campeonato nacional. Tom Krattenmaker, estudioso e autor de livro sobre atletas cristãos questionou em reportagem no USA TODAY, de 16 de janeiro de 2012, se "Quando Tim Tebow perde, Deus perde, também?".
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31 Janeiro, 2012

Pretérito mais que imperfeito

Eberh Vêncio, Revista Bula

“Já era quase noite e ainda não havia encontrado a árvore perfeita em que pudesse atar a ponta da corda. Carecia ser uma árvore imponente, espécime de grande porte, com galhos firmes e inflexíveis, como a vida. Calculava se matar de maneira rápida, objetiva e eficaz. Morreria de qualquer jeito, de morte natural, maltratado por um tumor que lhe espremia os miolos, um caso perdido pela ciência, pelos charlatães e milagreiros. Então, que antecipasse, ele mesmo, o inevitável desfecho. Era virginiano, sistemático, exigente, metódico. O controle remoto da TV, do lado direito da estante; o do som, do lado esquerdo. A “Bíblia” volumosa, aberta bem ao meio, rigorosamente. Afinal, era um ateu dos mais detalhistas.

Leitor contumaz sabia da eficácia de alguns produtos químicos que, injetados no canudo da veia, produziam uma morte breve e sem sofrimento, um sono derradeiro e sem dias seguintes. Uma vez dopado, a asfixia nem seria sentida. Morreria dormindo, as mucosas azuladas como a água do mar, a morte que todo o mundo sonha ter. Contudo, não sabia ao certo o nome dos medicamentos, muito menos, a dosagem preconizada, as combinações necessárias, a velocidade de infusão do veneno pelo embolo da seringa. Além do mais, o pavor pelas agulhas carregava consigo desde a infância. Seria incapaz de furar a própria veia sem que desfalecesse, antes de consumar a injeção. Demandaria recrutar um ajudante, um comparsa, uma criatura por demais compreensiva ao ponto de apoiar o procedimento, sem remorso, sem reparos, sem lágrimas ou discursos para demovê-lo. Nenhuma chance. Riscou da ideia o uso do coquetel de drogas.

Poderia, quem sabe, jogar-se na frente de um veículo. Ônibus, van, um caminhão-cegonha carregado de carros novos. Ah... Jamais a indústria automobilística vendeu tantos carros como neste ano, é quase um milagre econômico, nos discursos dos governantes... O trauma, sem dúvidas, seria brutal e deletério ao seu franzino corpo de homem na meia idade. Um homem meia-sola. Não queria, porém, envolver terceiros naquela mórbida missão. Não tinha o direito de desgraçar com a vida dos outros. Mais escrúpulos de um perfeccionista. Desistiu do atropelamento.”
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30 Janeiro, 2012

Salvar vidas ou o capital?

Frei Betto, Adital


“O melhor Papai-Noel do mundo mereceram 523 instituições financeiras europeias quatro dias antes do Natal: 489 bilhões de euros (o equivalente a R$ 1,23 trilhão), emprestados pelo BCE (Banco Central Europeu) a juros de 1% ao ano!

Curiosa a lógica que rege o sistema capitalista: nunca há recursos para salvar vidas, erradicar a fome, reduzir a degradação ambiental, produzir medicamentos e distribuí-los gratuitamente. Em se tratando da saúde dos bancos, o dinheiro aparece num passe de mágica!

Há, contudo, um aspecto preocupante em tamanha generosidade: se tantas instituições financeiras entraram na fila do bolsa-BCE, é sinal de que não andam bem das pernas…

Quais os fundamentos dessa lógica que considera mais importante salvar o Mercado que vidas humanas? Um deles é este mito de nossa cultura: o sacrifício de Isaac por Abraão (Gênesis 22, 1-19).

No relato bíblico, Abraão deve provar a sua fé sacrificando a Javé seu único filho, Isaac. No exato momento em que, no alto da montanha, prepara a faca para matar o filho, o anjo intervém e impede Abraão de consumar o ato. A prova de fé fora dada pela disposição de matar. Em recompensa, Javé cobre Abraão de bênçãos e multiplica-lhe a descendência como as estrelas do céu e as areias do mar.

Essa leitura, pela ótica do poder, aponta a morte como caminho para a vida. Toda grande causa - como a fé em Javé - exige pequenos sacrifícios que acentuem a magnitude dos ideais abraçados. Assim, a morte provocada, fruto do desinteresse do Mercado por vidas humanas, passa a integrar a lógica do poder, como o sacrifício "necessário” do filho Isaac pelo pai Abraão, em obediência à vontade soberana de Deus.

Abraão era o intermediário entre o filho e Deus, assim como o FMI e o BCE fazem a ponte entre os bancos e os ideais de prosperidade capitalista dos governos europeus - que, para escapar da crise, devem promover sacrifícios.

Essa mesma lógica informa o inconsciente do patrão que sonega o salário de seus empregados sob pretexto de capitalizar e multiplicar a prosperidade geral, e criar mais empregos. Também leva o governo a acusar as greves de responsáveis pelo caos econômico, mesmo sabendo que resultam dos baixos salários pagos aos que tanto trabalham sem ao menos a recompensa de uma vida digna.”
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29 Janeiro, 2012

Saiu do cinema pra comprar pipoca e nunca mais voltou

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Confesso que não vou muito ao cinema. E não o faço por vários motivos, dentre os quais, o frio que eu sinto dentro das salas de projeção (meu corpo magricelo não suporta o ar congelante) e a pipoca cara à beça (por acaso, utilizam milho transgênico importado dos esteites ou manteiga de leite de cabras montesas dos Alpes suíços?). 

A alta tecnologia provoca em mim outro entrave gravíssimo: os filmesem três-dê. Bastacolocar os óculos na cara para começar a vertigem, mãos frias e a sudorese. São reações físico-emocionais de um careta, sem dúvida. Cruéis, meus filhos riem de mim. 

Há outros transtornos pouco relevantes que também me afugentam, como o medo de tropeçar no escuro e me estatelar no chão carpetado. Prefiro não arriscar, então sofro com a bexiga cheia. Ser obrigado a comentar o filme através de cochichos ao pé do ouvido, para não incomodar as outras pessoas, é outro grave desafio. Na sala de casa a verbalização é livre. Além do mais, quem fica com o controle remoto nas mãos sou eu. Porém, verdadeiramente, o que mais me repele dos cinemas é o risco de cair em ciladas.com, como aquela do Bruno Mazzeo em 2011. 

Em quarenta e seis anos de vida, somente duas ocasiões eu presenciei a saída de pessoas de uma sala de cinema, antes que o filme chegasse ao fim. Na primeira vez, fui eu próprio o protagonista, juntamente com um colega da escola. Apesar de moleques, penetramos (Sem duplo sentido, por favor! Não sou Marcelo Madureira! Não sou Hubert! Não sou um casseta! Não quero cansá-los!) num filme pornográfico do antigo Cine Casablanca, no centro da cidade. 

De acordo com os aberrantes cartazes da programação (naquela época, ninguém se preocupava em cobrir com tarjas pretas as genitálias femininas), tínhamos algumas opções interessantes: a reprise do espermático-indigesto filme norte-americano “Garganta Profunda”, e os nacionais “Cada um Dá o Que Tem” (com a Alcione Mazzeo, mãe de Bruno), “Arapuca do Sexo” e “Enfermeira Sem Calcinha”. Ufanistas de araque, nós decidimos prestigiar o cinema brasileiro: fomos então capturados pela arapuca. 

Tolos, como sói ocorre à maioria dos mancebos, fizemos a incursão naquela matinê pornográfica (lembro-me perfeitamente que era um sábado, e assistíamos à sessão das 14h) interessadíssimos em conhecer como era fazer sexo de verdade. Não entrava em nossas cabeças que o sexo fosse uma coisa tão suja, pecaminosa e perigosa, conforme dizia a Irmã Amarílis em suas aulas de “orientação sexual”. 
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27 Janeiro, 2012

Para quê serve o Oscar?


“É preciso lembrar que o famoso prêmio é uma auto-congratulação da indústria, um sintoma contemporâneo do cinema comercial.

Bruno Carmelo, Discurso-Imagem / Outras Palavras

As indicações para os Oscars 2012 foram anunciadas, e como de costume, a imprensa começou a lançar suas apostas, seus preferidos, suas indignações sobre tal grande ator que não foi indicado ou tal filme medíocre que teria roubado a indicação de outra obra considerada melhor. Paralelamente, as mesmas vozes contrárias aparecem para dizer que o Oscar não serve para nada, que a cerimônia não reflete uma verdadeira noção de qualidade.

Estes dois pontos de vista são simplistas demais, ou melhor, eles não fazem sentido, por não partirem dos mesmos critérios. Reclamar que “tal filme não é tão bom assim” ou que outro era “bem melhor que o vencedor” são frases de efeito sem significação, a não ser que os valores do julgamento sejam explicitados e colocados em contexto – o que quase nunca ocorre. O filme X é bom para quê, ou para quem? Transformers pode ser um melhor filme do que A Separação se o critério em questão for a diversão, a bilheteria, enquanto a obra iraniana pode ser considerada melhor se o valor em jogo for a capacidade de refletir sobre a sociedade contemporânea.

Dizer que o Oscar não serve para nada é um aforismo dos mais fáceis a contradizer. Sim, o prêmio serve para muitas coisas: para lançar novas estrelas de cinema, para aumentar a bilheteria dos filmes vencedores, para estabelecer uma certa noção de gosto e de competência técnica e artística, para ditar algumas tendências de moda, para conquistar uma boa audiência na televisão, para enviar um símbolo que a indústria cinematográfica vai bem etc. A questão sobre a capacidade deste prêmio a determinar a qualidade de um filme já é outra história.

Isso porque não se pode esquecer que o Oscar é uma premiação feita pela indústria e para a indústria, no intuito de recompensar seus melhores produtos. Não há nada vergonhoso nisso, pelo contrário, é mais do que normal que cada premiação ou festival indique seus valores particulares – até porque a noção de “bom filme” é vasta demais para ser atribuída de maneira unívoca. O Oscar premia o desempenho do mercado, enquanto o festival de Cannes premia uma forma muito específica do cinema de autor, o festival de Berlim premia filmes “de arte” de cunho social e os MTV Awards premiam a diversão do ponto de vista do espectador adolescente.”
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26 Janeiro, 2012

A presidenta Dilma e Paulinho da Viola


Urariano Mota, Direto da Redação

Um dia desses notei que a história política do Brasil poderia ser contada pela história da sua música popular. E como sempre acontece em qualquer descoberta, essa conclusão geral me chegou pela persistência de alguns casos individuais, que traziam em si um dom universal. Assim foi, por exemplo, em páginas de “Soledad no Recife”, quando a ressurreição dos malditos anos da ditadura se fez sob a canção dos tropicalistas. Assim foi quando escrevi sobre Geraldo Vandré, sobre Chico Buarque, sobre Roberto Carlos... assim tem sido em textos mais ambiciosos, escritos sob a música íntima que me acompanha ao narrar o mundo submerso da infância. Que nos acompanha a todos quando recuperamos vidas, melhor dizendo.  

Escrevo isso agora a partir de uma revelação do livro “A vida quer é coragem”, de Ricardo Batista, conforme artigo de Alberto Villas:
“...a uruguaia Maria Cristina Uslendi conta que em outubro de 1971, toda vez que voltava das sessões de tortura encontrava Dilma de braços abertos ‘me amparando, me ajudando a usar a latrina quando não tinha forças, me dando sopinhas de colher na boca, me cedendo a parte de baixo do beliche e pondo na vitrolinha de pilhas as melhores músicas da MPB’. Cristina conta que Dilma sempre pedia a ela que prestasse muita atenção à letra de "Para um amor no Recife", uma canção de Paulinho”.

O quanto isso é verdadeiro. O quanto a música popular foi remédio, cura e perdição da maioria dos brasileiros que estiveram contra a ditadura. O quanto devemos a esses artistas da canção, numa dívida que eles próprios não alcançam o tamanho, mas que é, ao mesmo tempo, motivo de sufoco e prisão para eles, em razão do papel que ganharam à sua revelia. No entanto, importa mais aqui, para não me distanciar do objeto destas linhas, falar alguma coisa sobre o Paulinho da Viola daqueles anos.”
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25 Janeiro, 2012

Envolta no lençol


Menalton Braff, Revista Bula

"A claridade é pouca, mas me incomoda, mesmo assim não consigo ficar de olhos fechados. A luz deve ser do sol e emana de maneira difusa das quatro paredes do quarto. A porta está muda, pelo menos é o que a chave em seu orifício está querendo significar. Mal consigo ver as telas de que o Roberto tanto se orgulha e que são a expressão de seu gosto pelo kitsch, colocadas em simetria rigorosa em volta da tapeçaria da parede aqui ao lado. Não é justo, isto não está certo. Tento me fixar em uma delas, mas o que vejo é fruto da memória: claridade insuficiente. Estar na cama a uma hora em que a cidade se move nervosa, as pessoas se movem nervosas, e mesmo os automóveis se movem nervosos, isso me escandaliza. Eu precisava, contudo, para que a consciência me deixasse em paz, dar mais esta oportunidade ao meu ex, como agora já posso me referir a ele. A sensação, entretanto, de estar na cama a esta hora, é a de estar praticando um ato ilícito. Ou pior: imoral. E pensar que muitas outras vezes estivemos aqui, fizemos amor nesta mesma hora, e saímos leves, meio tontos, prontos para rir das pessoas que se moviam nervosas, numa cidade trepidante. 

Jogou o corpo flácido para o lado e dormiu, sem se dar conta dos cheiros que deveriam ser do amor e que agora não passam de vestígios do sexo com que tenta me reter. Ronca a meu lado, sua perna direita dobrada por cima do meu quadril. Há muito eu vinha dizendo, Não dá mais, Roberto, isso tem que acabar.   

Nossas diferenças me irritavam, principalmente as divergências a respeito das coisas miúdas, de que o Roberto jurava  jamais abrir mão. Que a busca da harmonia, sim, o difícil encontro entre seres tão mergulhados em seu passado, que tal esforço caberia a mim. E não me dava uma razão para que me coubesse a parte mais áspera de nossas relações. Apesar do sacrifício, eu ia aceitando porque me consumia no incêndio da paixão, e nada do que me pedisse eu deixaria de fazer. 

Com aquela voz distorcida e metálica do telefone, ele me disse estar certo de que eu reveria minhas posições, que tinha argumentos irrefutáveis. Respondi que não, Roberto, isso tem de acabar. Ele insistiu, quase chorou, e mais uma vez acabei cedendo. Tola, só quando abriu a porta, um sorriso vencedor brilhando em seu rosto, foi que desconfiei da natureza de seus argumentos: seu corpo em que saliências e reentrâncias, os torneados, tudo fazia parte de uma compleição perfeita para a sedução. Me esperava de cueca para expor melhor o que de melhor ele tinha.”
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24 Janeiro, 2012

Sustentabilidade: tentativa de definição


Leonardo Boff , Mercado Ético / Envolverde

“Há hoje um conflito entre as várias compreensões do que seja sustentabilidade. Clássica é a definição da ONU, do relatório Brundtland (1987): “desenvolvimento sustentável é aquele que atende as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem suas necessidades e aspirações”. Este conceito é correto mas possui duas limitações: é antropocêntrico (só considera o ser humano) e nada diz sobre a comunidade de vida (outros seres vivos que também precisam da biosfera e de sustentabilidade). Tentarei uma formulação o mais integradora possível.

Sustentabilidade é toda ação destinada a manter as condições energéticas, informaconais, físico-químicas que sustentam todos os seres, especialmente a Terra viva, a comunidade de vida e a vida humana, visando à sua continuidade e ainda a atender as necessidades da geração presente e das futuras de tal forma que o capital natural seja mantido e enriquecido em sua capacidade de regeneração, reprodução e coevolução.

Expliquemos, rapidamente, os termos desta visão holística.

Sustentar todas as condições necessárias para o surgimento dos seres: estes só existem a partir da conjugação das energias, dos elementos físico-químicos e informacionais que, combinados entre, si dão origem a tudo.

Sustentar todos os seres: aqui se trata de superar radicalmene o antropocentrismo. Todos os seres constituem emergências do processo de evolução e gozam de valor intrínseco, independetente do uso humano.

Sustentar especialmente a Terra viva: a Terra é mais que uma “coisa” (res extensa) sem inteligência ou um mero meio de produção. Ela não contém vida. Ela mesma é viva, se autorregula, se regenera e evolui. Se não garantirmos a sustentabilidade da Terra viva, chamada Gaia, tiramos a base para todas as demais formas de sustentabilidade.”
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23 Janeiro, 2012

Pensar com a própria cabeça: educação e pensamento crítico na América Latina


“As sociedades latino-americanas devem se reinventar constantemente sempre que cada experiência de surgimento de liberdade seja seguida de golpes dos velhos e novos conquistadores.

Raquel Sosa Elízaga, Revista Fórum  / Envolverde

Simón Rodríguez, o admirável mestre de todos nós que acompanhou Simón Bolívar em seu périplo, passou toda sua vida imaginando, desenhando e construindo os fundamentos de uma proposta educacional a partir da explosão da criatividade de nossos povos, a qual só pode ser explicada pelo irrenunciável desejo de liberdade perante a contínua opressão (Rodríguez, 1975). Consideremos que, se o colonialismo produz impotência e dissabor, seu efeito mais perverso é induzir o conquistado a se conformar diante do fato de que sua liberdade tenha sido cerceada, talvez para sempre, e que para continuar existindo deve inevitavelmente se dar por vencido, aceitando e repetindo aquilo que seus opressores lhe impõem. A sequência dramática é tão atroz que o conquistado acaba considerando o pensamento imposto como se fosse o seu e a obstrução de sua liberdade como parte do caminho que o levará ao aprimoramento de sua vida.

Retroceder esses passos, rompendo com esses tortuosos vínculos, para muitas pessoas pode parecer um salto no escuro, uma aventura sem destino, uma espécie de suicídio intelectual e moral. Entretanto, nenhuma geração humana pode renunciar ao seu direito de criar, de imaginar e projetar sua própria vida, sob o risco de transformar-se em um reprodutor conformista de tudo o que em verdade lhe produz um autêntico mal-estar cultural: a frustração, o desenraizamento, a perda de objetivos e o esquecimento dos sonhos – um problema do qual padecem muitos jovens em nossas doídas sociedades ainda no dia de hoje. Todos esses males não têm outra origem nem outra razão de ser além da ruptura dos vínculos com nossa realidade; uma realidade de sociedades oprimidas, empobrecidas, construídas sobre a desigualdade, a exclusão e o esquecimento, mas que também possuem a energia, a vontade e a esperança de serem capazes de remontar sua odiosa condição de submissão.

Nossa aposta, portanto, não pode ser mais irracional do que aquilo que nos impuseram os conquistadores: “inventamos ou erramos”, disse muito bem Simón Rodríguez, afirmando que o único caminho possível para nós é o que decidamos construir entre todos a partir de nossa própria experiência, de nossas próprias perguntas, de nossas necessidades e sonhos. Precisamos ser os mais radicais possíveis, isto é, capazes de desentranhar, sem medo ou falsas suposições, as raízes dos nossos problemas e o modo em que poderemos nos empenhar a remontá-los, com as forças e a capacidade de que disponhamos em cada época. Precisamos aprender a olhar uns aos outros com outros olhos, nossos olhos, para refazer o amor por nossa terra, por nossos saberes, pela cor e pelo cheiro da nossa pele. As sociedades latino-americanas devem se reinventar constantemente sempre que cada experiência de surgimento de liberdade seja seguida de golpes dos velhos e novos conquistadores. Principalmente – e talvez esta seja a condição mais dramática que enfrentamos – nossas sociedades devem se proteger do fato de que a memória perversa da opressão as chame para regressar a ela como lugar seguro, apesar de toda dor que produz. Lembro-me muito bem das frases de Norbert Lechner, que, no contexto da ditadura pinochetista, afirmava que não havia outra sociedade que a sociedade possível, que não cabia outra imaginação além daquela indicada por quem se sentia cansado dos extremos, que somente o reconhecimento da necessidade de segurança, de tranquilidade, de proteção, de ordem, podia ser a garantia de uma sociedade harmoniosamente moderna (Lechner, 1986). Descanse em paz este pensador e vida longa aos jovens chilenos que nos devolveram a esperança com sua teimosia em resistir ao colonialismo contemporâneo, com sua cruel pilhagem e sua opressão sobre a educação.”
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