01 março, 2015

Ninguém é feliz o tempo todo. Ainda bem


André J. Gomes, Revista Bula

"Demora, mas vem. Depois do encontro, da festa, do êxtase, das delícias em fila, dos sentimentos em fartura, da esperança vigorosa, da promessa de felicidade, do amor em seus indícios, da saudade e seus inícios, depois de tudo isso ela vem. Uma fria e descabida tristeza sempre vem.

No fim de tanta alegria perfeita dá as caras uma dura, cruel e implacável sensação de desalento. Depois das emoções superlativas vem um quase nada, um vazio dolorido, uma luz amarela, abatida, luzindo acanhada pela fresta da porta, como quem espia um estranho, o quarto do homem sozinho que tropeçou em seu amor ensolarado e morre de medo do escuro.

28 fevereiro, 2015

12 livros que desbotariam todos os 50 tons de cinza


Ademir Luiz, Revista Bula

"Todo mundo só fala desses tais “Cinquenta Tons de Cinza”. Quando não é o livro é o filme. Só faltam lançar vídeo games e quadrinhos desse negócio! O pior é que, até onde sei (só folheie rapidamente os livros e vi o trailer do filme), me pareceram produtos meio-frouxos, meia-bomba. Sem pensar muito dou uma dúzia de livros que certamente fariam corar (a fã de “Crepúsculo”) E. L. James, “autora” dos romances. E nem preciso citar os mais óbvios, como o Decamerão, o Marquês de Sade, o olho de Bataille, os anais de Anaïs Nin, os trópicos de Miller ou os Budas Ditosos do “escritor ninja” João Ubaldo Ribeiro (alguém aí se lembra do ex-imortal vestido de ninja no Casseta & Planeta?). Realmente, a literatura para ser lida com uma mão só já viu dias melhores.

Cântico dos Cânticos, de Deus

É a prova de que até Jeová, como bom judeu que é, consegue escrever literatura erótica melhor do que E. L. James. Como pregou o bom rabino Woody Allen, “sexo só é sujo quando é bem-feito”. Amém.

26 fevereiro, 2015

Os 10 romances mais importantes da literatura brasileira


Miguel Sanches Neto, Revista Bula

As listas são um instrumento crítico de grande relevância, pois trazem, subjacente, um conceito de literatura — este conceito talvez seja mais importante do que as obras escaladas. Ao escolher apenas 10 romances brasileiros eternos, segui alguns critérios: não repetiria livros do mesmo autor; privilegiaria obras que trouxeram alguma inovação formal; e daria preferência a livros que fossem mais do que uma história, que tivessem um valor metonímico, representando um período literário, um painel histórico, um grupo social, uma tendência estética. Podem ser considerados como marcas comuns a todas as narrativas listadas o desejo de construir um retrato do Brasil e o investimento em uma linguagem identitária — cada título, logicamente, à sua maneira. Teríamos aqui então um pequeno mapa do grande romance nacional.

24 fevereiro, 2015

Morte, sexo e consolação

Camus
Fabio Hernandez, DCM

"Você muito provavelmente já leu O Estrangeiro, do Albert Camus. As primeiras linhas são reverenciadas. “Hoje morreu minha mãe. Ou talvez ontem, não sei bem.”

Uma passagem. Queria discutir uma passagem específica desse pequeno grande romance. O narrador é moralmente condenado, num tribunal, porque um dia depois da morte da mãe faz sexo com Marie. A condenação moral vai levar a outra bem mais drástica.

23 fevereiro, 2015

Lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos, segundo Hollywood


Carlos Willian Leite, Revista Bula

'A revista “The Hollywood Reporter” convocou personalidades de Hollywood — atores, produtores, diretores, roteiristas e executivos —, para escolher seus filmes favoritos. Ao todo, mais de 2 mil participantes responderam a enquete. A lista traz filmes de variadas épocas e gêneros. De “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola, a “E.T.”, de Steven Spielberg; de “O Mágico de Oz”, de Victor Fleming, a “Casablanca”, de Michael Curtiz; de “Quanto Mais Quente Melhor”, de Billy Wilder, a “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa.

22 fevereiro, 2015

Como ser feliz no amor e no sexo segundo Balzac

Fabio Hernandez, DCM

Balzac (1799-1850) foi o romancista entre os romancistas. O maior de todos. Com sua Comédia Humana, composta de 88 volumes independentes mas entrelaçados, Balzac praticamente inventou o romance como gênero literário. Balzac foi um caso raro de trabalhador árduo entre os franceses, culturalmente acostumados a cultivar o ócio acima do trabalho, algo que encontra sua tradução imortal na expressão “joie de vivre” — alegria de viver. Balzac trabalhava 15 horas por dia, movido a café. Não era exatamente um estilo de vida saudável, e ele encontrou a morte na Paris que retratou como ninguém aos 51 anos.

O amor e o sexo estão obsessivamente presentes em Balzac. De seus escritos se pode extrair um pequeno e útil manual de conduta amorosa em 15 frases nas quais Balzac prova ser uma espécie de Buda do relacionamento entre homens e mulheres. Os sutras — sintéticos aconselhamentos — de Buda para a conquista do nirvana encontram em Balzac uma versão para a conquista do sexo perfeito.

21 fevereiro, 2015

10 aforismos de Confúcio para um relacionamento perfeito


Fabio Hernandez, DCM

'Três sílabas explicam o fenômeno da China. Con-fú-cio. Os chineses seguem os ensinamentos de Confúcio há 2500 anos. Confúcio é um semideus na China. Nunca escreveu um livro, mas discípulos atentos registraram o que viram e ouviram num pequeno livro chamado Analectos.

É fácil, prático, simples de entender. Não tem abstrações, não tem metafísica, não tem a enrolação pseudoerudita tão comum nos filósofos ocidentais, sobretudo os modernos e franceses. A China seguiu Confúcio e deu no que deu.

Pode dar certo com você também, por que não?

Adaptei alguns ensinamentos do Mestre, como o chamavam seus seguidores, às coisas do coração. Apenas para facilitar, vou escrever sob a perspectiva masculina, mas é claro que tudo serve também para as mulheres. Basta trocar o gênero nos aforismos.

20 fevereiro, 2015

O beijo de Theodoro Cochrane e o moralismo brasileiro


Jenifer Severo, DCM

Na última segunda-feira, 16, um dos assuntos mais veiculados nos principais sites de fofoca foi o beijo gay protagonizado pelo ator e filho da jornalista e apresentadora Marilia Gabriela, Theodoro Cochrane, no carnaval de salvador. A notícia repercutiu de forma um tanto curiosa na mídia, sendo alvo de diversos comentários homofóbicos por parte dos internautas.

Em apoio ao ator, o deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ), que é assumidamente homossexual, publicou uma foto em seu facebook, na qual aparecia beijando um amigo maquiador num camarote na Sapucaí.
Na sua página, Jean declarou:

“Teodoro Cochrane, beije mesmo; beije muito! Todo e qualquer beijo é gay quando é motivado por alegria e desejo. Não há “pecado” algum em beijar outro homem; não há vergonha alguma. O único pecado (e vergonha!) é a estupidez de quem não admite a expressão de outras formas de amar, mesmo disfarçando seu preconceito em ‘notícia’. Toda a minha solidariedade a você! Beijei em sua homenagem.”

19 fevereiro, 2015

Amores de fast-food matam o coração


Karen Curi, Revista Bula

"A fome é tanta, a pressa, a ânsia pela saciedade consome os apressados. O mundo anda mesmo tão corrido… As vontades e quereres, sempre tão urgentes, precisam ser prontamente atendidos porque ninguém aguenta esperar que chova na sua horta. Dizem os mais inquietos que esperar é para os acomodados, que devemos correr atrás dos sonhos, abrir os caminhos do nosso destino, botar a mão na massa e fazer acontecer. Concordo. Só que existe um porém; corre-se demais sem saber realmente o que buscar, e no desespero de conseguir o que quer — ou a ilusão do que se almeja — os apressados se perdem, se enveredam em toda e qualquer saída. A fim de alcançar o maior número de conquistas (que neste caso não são vitórias), deixa-se de dar importância às consequências que cada uma delas traz ao coração.

Preciso confessar que eu faço parte do time dos maratonistas da vida. Sim. Quero tudo pra ontem, não me acomodo nas comodidades que meus dias me regalam. Me apavoro só de pensar numa vida sem mudanças, na rotina perfeitamente traçada sem direito à desvios. Não me bastam as certezas do meu universo, nem a quietude de uma espera consentida no portão. Eu quero mais é vendaval, tormentas abruptas que levam embora o que não é firme o bastante para permanecer. Só dessa forma eu consigo admirar a calmaria da manhã seguinte e valorar o que ficou de profundo e enraizado.

18 fevereiro, 2015

Depois do consumismo, o quê?

"A grande ferramenta de controle social da pós-modernidade está em crise. Mas para superá-la, não bastam discursos. O decisivo é reinventar experiências e laços sociais

 George Monbiot, Outras Palavras. Tradução: Inês Castilho

A grande ferramenta de controle social da pós-modernidade está em crise. Mas para superá-la, não bastam discursos. O decisivo é reinventar experiências e laços sociais

Uma mulher entra numa grande loja de varejo. Sufocada pelas prateleiras abarrotadas, música melosa, cartazes de ofertas, consumidores indiferentes que perambulam pelos corredores, ela e é levada a gritar – repentinamente e para seu próprio espanto. “Isso é tudo o que existe?” Um funcionário sai de seu posto e vem até ela: “Não, minha senhora. Tem mais coisas em nosso catálogo.”

Essa é a resposta que recebemos para tudo – a única resposta. Podemos ter perdido nossos vínculos, nossas comunidades e nossa noção de sentido e valor, mas sempre haverá mais dinheiro e objetos com que substituí-los.

Agora que a promessa evaporou, o tamanho do vazio torna-se compreensível.
Não que a velha ordem moderna fosse necessariamente melhor: era ruim de modo diferente. Hierarquias de classe e gênero esmagam o espírito humano tão completamente quanto a fragmentação. A questão é que o vazio preenchido com lixo poderia ter sido ocupado por uma sociedade melhor, construída sobre apoio mútuo e conectividade, sem a estratificação asfixiante da velha ordem. Mas os movimentos que ajudaram a quebrar o velho mundo foram favorecidos e cooptados pelo consumismo.

17 fevereiro, 2015

Ruas e Rosas, por Maíra Vasconcelos


Maira Vasconcelos, GGM

'Devo começar a falar o que vejo nas ruas. Enfim, apenas falar. Mesmo sendo o silêncio parte fundamental de todo aprendizado. Sei que nunca deixarei de ser silenciosa. Tenho a mania horripilante de me esconder sem ninguém perceber. 

Um gesto involuntário de quietação interna. Queria perdê-lo. Esse adeus de mim é o sonho de poder ser o que não sou. Mas devo mesmo insistir e aprender a me expressar sabiamente.

As ruas podem ser bonitas e românticas, como também porosas e difíceis. Ruas são extremistas. Tudo depende do lado da calçada e do estado do nosso pé. Sim!, o meio-fio existe!

Estarei aqui a pontuar coisas da rua. Porque não sou muda: falo. Este falar está a salvar o meu dia de hoje. Vou olhar a rua pela janela enquanto deixo de escrever. Porque se falo desenfreadamente estou encaracolando-me desenfreadamente. Embola tudo. Viro um novelo de lã. Depois fico buscando o que há de embaraçado em mim.

Veja!