30 outubro, 2014

Velhas saudades têm sempre uma nova esperança


André J. Gomes, Revista Bula

"Um dia acontece. Você acorda, abre a janela e encontra um tempo feio como bronca de filho em mãe, triste, dia de ser só. O céu cor de chumbo é um longo e imenso desamparo, a rua está úmida, mais vazia que a primeira tarde depois do fim do mundo, e você tem um desejo dolorido de voltar à cama, ao convívio das cobertas, ao escuro silencioso da madrugada, ao útero materno.

Você fica ali, em seu canto sem hora, colando rostos e cenas e motivos nas páginas brancas de seus vazios. Não há nada que dar a ninguém. Fica ali só, até aquilo passar.

E aquilo passa, sempre passa. Vira outra coisa e você vai em frente, vai à vida. Escolhe seguir adiante. Seu olhar insiste em ver beleza no quase tudo. Até o cheiro do dia frio vai lhe dar vontade de arrumar as gavetas, cortar as unhas, ajeitar o cabelo. Deixar o mundo bonito como no trabalho do jardineiro simples em sua intenção sagrada de enfeitar a vista alheia.

29 outubro, 2014

Fiat Lux! Ou porque fé não tem de odiar a Ciência. Aliás, não odiar, ponto


Fernando Brito, Tijolaço  

"A melhor notícia do dia vem lá do Vaticano.

E quem diz isso é um ateu incurável.

É a declaração do Papa Francisco, dando um “vade retro” ao fundamentalismo, ao afirmar que as teorias científicas da evolução e do Big Bang estão corretas e que não são incompatíveis com a existência de um criador.

“Quando lemos sobre a criação no Gênesis, corremos o risco de imaginar que Deus era um mágico com uma varinha capaz de fazer tudo. Mas não é isso”.
Que ótimo ouvir um Papa dizer isso, numa hora em que uma parte expressiva da nossa classe média está tomada por ideias de superioridade racial, econômica, geográfica.

28 outubro, 2014

O que podemos aprender com o vibrador de Luana


, DCM

"Na última semana, a atriz Luana Piovani postou em seu Instagran uma selfie com a intenção de mostrar aos seguidores uma espinha seu queixo.

Mas o que deveria ser apenas mais um episódio de exibicionismo de celebridades nas redes sociais transformou-se em uma verdadeira polêmica quando os seguidores identificaram, ao fundo da acne que protagonizava a foto, um objeto que supunham ser um vibrador.

Os comentários – como já se podia esperar – foram de completa ignorância acerca da sexualidade feminina.

Pérolas como “Scooby (marido da modelo) não está dando conta do recado?” e “Isso é que é ter marido viajado!”, entre outros absurdos irrepetíveis, tomaram conta do Instagran da moça.

27 outubro, 2014

Ganhou a verdade. A mídia mais uma vez saiu derrotada


"Esta é a vitoria da luta contra o ódio, contra o fascismo de alguns, contra as idéias nazistas de outros. Esta é a vitoria de um “Brasil para todos”, de um Brasil que rejeita sua divisão

Marilza de Melo Foucher, Brasil 247

Viva a democracia brasileira! Parabéns para todos (as) que lutaram e lutam pela sua consolidação e por seus avanços. Parabéns a geração de Dilma que lutaram contra a ditadura, ela saiu vitoriosa. 

Resta agora o respeito republicano ao sufrágio das urnas! 

Esta é a vitoria da luta contra o ódio, contra o fascismo de alguns, contra as idéias nazistas de outros. 

Esta é a vitoria de um “Brasil para todos”, de um Brasil que rejeita sua divisão. Em todas as regiões, em todos os rincões do Brasil vivem brasileiros de diferentes categorias sociais, brasileiros de todas as origens, de múltiplas religiões e religiosidade, brasileiros ateus, agnósticos. Existe a presença e convivência deste Brasil multicolorido, somos negros, brancos, morenos, pardos, sararas, caboclos, cafusos, índios, descendentes de todos os continentes. Somos um povo plural e temos uma cultura plural.

26 outubro, 2014

Viver é aceitar. Aceite

Fotografia: Nate Wootten Photography
André J. Gomes, Revista Bula

"Que venha. Seja lá o que for, venha. A gente aceita. Encara, luta, cai, levanta, vai em frente. Aceita o que foi, o que é e o que vem. Não, nós não somos permissivos, acomodados, medrosos, trouxas. Nós somos gente. E a gente aceita.

Aceita até mesmo quando rejeita, recusa, esperneia, grita. A gente aceita o inaceitável em conclusão íntima. O teto desaba, o assoalho rompe, as paredes apertam. E a gente aceita.

Aceita pagar por serviços odiosos, aceita esperar de pé em filas enormes por um atendimento de cara feia. Aceita circular de bandeja em mãos por praças de alimentação lotadas até encontrar uma mesa vazia, engordurada, ao lado da lixeira entupida, transbordando sujeira dos outros. A gente aceita o que tem.

25 outubro, 2014

A falácia da Meritocracia


Nairan Ballesta, Pragmatismo Político

"É tendência comum supor que, em relação a resultados esperados, se deva priorizar aquelas pessoas que demonstram talento e esforço pessoal na solução de problemas ou na busca de se sobressair diante da competitividade, e escolher essas pessoas para assumirem posições criticas e importantes de decisão ou responsabilidade na execução de tarefas, sejam particulares, sejam públicas. Dito dessa forma pode parecer natural e justo que sistemas meritocráticos assumam prevalência e preponderância sobre outras formas de escolha e definição de prioridades ou oportunidades em empresas, governos e entidades sociais. No entanto é cada vez mais frequente a percepção de que os sistemas meritocráticos se mostram injustos, discriminatórios, segregacionistas e que criam sérios problemas burocráticos, sociais e políticos nas sociedades em que são aplicados, tanto que nenhuma sociedade atual possui um sistema totalmente meritocrático em aplicação, apesar da meritocracia estar presente em maior ou menor grau em praticamente todas elas.

Pois bem, então onde reside o problema com a meritocracia, e porque ela se mostra tão dúbia e é tão fortemente contestadas por tantas pessoas?
Bem, me aventuro a dizer que em meus pensamentos sobre essa questão levantei algumas hipóteses e desenvolvi algumas idéias sobre essa questão e vou buscar apresentar algo dessas idéias nesse trabalho.

24 outubro, 2014

O fascismo aqui e no cinema de Rossellini


"Hibernando ou dissimulado no recôndito da (in)consciência, de tempos em tempos o fascio di combattimento de Mussolini irrompe sob a forma da intolerância

Léa Maria Aarão Reis, Carta Maior

Roma, cidade aberta é um dos grandes clássicos do cinema. Filme que deve ser visto e revisto para que não se perca nunca a perspectiva da violência do fascismo como ideologia política e arma de dissolução da convivência entre contrários na vida cotidiana dos indivíduos.

Hibernando ou dissimulado no recôndito da (in)consciência, de tempos em tempos o fascio di combattimento de Mussolini irrompe sob a forma da intolerância, insultos, intimidação, racismo, discriminação e força bruta até nos que pareciam imunes ao veneno - como vemos ocorrer no Rio e em São Paulo em violentas manifestações públicas, por enquanto individuais, nos últimos dias do período eleitoral.

23 outubro, 2014

A gratidão é uma flor sentida, delicada e bela

André J. Gomes, Revista Bula

"Numa cidade do interior, dessas que existem para além do tempo, para dentro de uma lembrança, uma cidadela entre o nada e o lugar nenhum, recanto de meia dúzia de vidas onde a beleza mora nas coisas minúsculas e nos gestos simples, uma vila onde a vida se passa no chão, sob as árvores, junto aos bichos e às plantas, ali vive um homem agradecido.

É bom você não esperar muito dele. Não é pessoa de tantas habilidades, não foi capaz de grandes feitos, não realizou amplas obras agrícolas, não construiu famílias centenárias nem inventou mecanismos revolucionários de aproveitamento da água da chuva. É só um homem comum, mas guarda no peito uma rara gratidão.

Todos os dias, de manhã, mas de manhã mesmo, antes do sol chegar, quando as aves cochilam no escuro e o amor se forma em silêncio no sono dos amantes, esse homem pula da cama e caminha até um canteiro simples. Ali, reza uma prece curta e bela, os pés descalços no chão chuviscado de orvalho, e toma emprestadas da terra as rosas de tantas cores que lá esperam cumprir seu destino de flor.

22 outubro, 2014

A picaretagem de Lindsay Lohan e Naomi Campbell e o apoio de celebridades a políticos

É tóis
DCM

"O apoio de gente famosa a políticos ou causas serve, de maneira geral, como uma via de mão dupla: candidatos podem ter credibilidade, mas não têm fãs ardorosos; celebridades têm fãs ardorosos, mas não credibilidade.

Para os artistas, é uma oportunidade de parecer que eles se importam com algo além de si mesmos. Ajudam também, em tese, a humanizar o político com um toque pop.

Em tese.

Não existe uma pesquisa que ateste que alguém votou por causa do que o cantor ou o ator falaram. Uma pesquisa nos EUA, onde o culto maluco ao celebritismo nasceu e virou um monstro, registrou que menos de 10% dos eleitores foi influenciado pelo apoio de um famoso nas eleições de 2004.

A falta de resultado prático não impede marqueteiros de abusar de depoimentos. Esta campanha ficou marcada por três flops globalizados.

21 outubro, 2014

Muito riso e pouco siso

A exploração de Dante do mundo espiritual mostrado em um exemplar da Divina Comédia, em um afresco de Michelino
"O inferno é infinitamente mais interessante do que o purgatório e o céu. No inferno nos identificamos, lá se encontram nossos vícios, os vícios humanos

Menalton Braff, CartaCapital

Pessoa de minha total confiança foi quem me contou. Uma dessas loiras contratadas por canais de televisão para divertir e instruir o povo brasileiro foi pega cometendo o que mais elas cometem: uma gafe dantesca. São esses os momentos em que mais sentimos a falta do Stanislaw Ponte Preta. Sentimos nós, os que tiveram a ventura de viver numa época em que ele vivia. E escrevia. Seu Festival de Besteiras que Assolam o País, além de fazer as delícias de uma geração inteira, era uma válvula na panela de pressão, que foi a ditadura de 1964, mas não eram besteiras apenas de políticos. Uma de suas frases mais célebres ─ “Televisão é máquina de fazer doido” ─ comprova a abrangência de seu olhar arguto e caberia muito bem neste caso relatado por meu amigo.

A dita loira, interrogada por alguém sobre A divina comédia, de Dante (mas isso também já é crueldade), não teve dúvida e lascou, com a maior cara-de-pau, que tinha rido do início ao fim do livro.  Pobres meninas, obrigadas que são, no fogaréu de programas ao vivo, a fingir o que não são porque não podem decepcionar seu público sempre ávido por heroínas.

20 outubro, 2014

Amor à pátria é o cacete. Eu gosto mesmo é de dinheiro


Eberth Vêncio, Revista Bula

 "É época de eleições no Brasil. Os ânimos e a intolerância estão exaltados, e o país parece muito claramente dividido em duas vertentes políticas que, ao menos nos discursos dos candidatos e nas bravatas das redes sociais, parecem antagônicas. Se bem que, depois que o Homem Sem Dedos e O Caçador de Marajás beijaram-se na boca, nada mais parece tão diferente e inovador como se supunha.

Ciganas honestas, marqueteiros velhacos, Adelaide — minha anã paraguaia — e os institutos de pesquisa e manipulação de massas garantem que, no momento, há um empate técnico entre os dois candidatos a Presidência.