24 abril, 2014

Eu não gosto de nada que o mundo gosta

, Revista Bula

"Eu não gosto de sonhar dormindo mais do que eu sonho ao permanecer acordado.
Eu não gosto do altruísmo narcisista das redes sociais.
Eu não gosto de carinho quando estou nervoso. Eu não sou um cãozinho faminto que rola e late.
Ainda que seja amargo como eu, eu não gosto de chocolate.
Eu não gosto de esconder os ovos de Páscoa das crianças nos arbustos do jardim.

23 abril, 2014

Da graça absoluta que tem uma mulher sorrindo

Fotografia: Portrait of a Young Woman — Pierre August Cot
, Revista Bula

"Lá está. Viu? Atrás daquele monte de compromissos, ao lado das caixas de expectativas não atendidas, bem ali! Em frente à prateleira das desculpas, perto do armário dos medos e suas gavetas de culpas, isso, achou! Bem ali, bem ali tem uma mulher sorrindo.

Repara como ela sorri bonito. Lindo, né? É uma moça que escreve, também. Sim, ela escreve. Como? Escreve o quê? Ah, claro. Escreve cartas. Para quem? Para ela mesma, para os outros, para ninguém. Porque tudo o que a gente escreve na vida são cartas, né? Certo é que elas ganham outros nomes por aí, no meio do caminho. Mensagens, recados, missivas, canções, literatura, peças de teatro, receitas médicas. Mas são sempre cartas. E essa mulher que sorri também escreve cartas para o mundo. Nem sempre chegam a seus destinatários, nem sempre têm quem as receba. Mas a moça que sorri a beleza nunca deixa de escrevê-las.

22 abril, 2014

Fique com quem faz você rir

, Revista Bula

"Tio Fábio, um falecido homem sábio do interior, Deus o tenha, sempre gostou de circo. Um dia, quando eu ainda era garoto, ele me levou ao circo. E apontou, com seus dedos amarelados pelo cigarro, o palhaço que me fizera gargalhar. Pense nesse palhaço quando for escolher as pessoas para ter ao seu lado.

Amigos, namoradas. É vital ter por perto pessoas que sorriam e nos façam sorrir. (Tio Fábio não era homem apenas de teoria. Na vida prática, tinha, como o palhaço daquele circo tão distante no tempo, uma notável capacidade de fazer os outros rirem.)

Então reflito sobre os relacionamentos amorosos. Eles são tão mais leves, tão mais gostosos quando temos conosco alguém que traga a luz exuberante dos sorrisos genuínos. (Digo genuínos porque não existe nada pior que o sorriso hipócrita e fabricado, como os dos políticos.) E os relacionamentos podem ser um tormento quando quem está ao nosso lado não sabe rir. O ideal é termos uma palhaça como namorada, mulher, manteúda ou que você quiser.

21 abril, 2014

As palavras voam. Só não sabemos onde pousam

"Ao dizer que minhas crônicas mudaram a sua vida, o estudante de jornalismo me jogou dentro de uma crônica de Rubem Braga 

Menalton Braff, CartaCapital

Quando sentei aqui na frente do micro pensando em escrever minha crônica da semana, já vinha com uma história montada, mas, como sempre, começou a tortura do título. Conheço um jovem escritor que jorra títulos da melhor qualidade com a mesma fluência com que se alivia no mictório (outro dia prometo contar a história do Mário de Andrade e o mictório).

Outros, como o Caio Porfírio Carneiro (foi ele quem me confessou), perdem noites de sono atrás de um título que valha a pena. Estou incluído entre os últimos. Me lembrei, estimulado pela natureza da história, que pretendia escrever alguma coisa sobre minha velha professora de latim. Também mandei bilhetinhos clandestinos em sala de aula, no meu tempo, e um dia fui pego pela professora de latim.

20 abril, 2014

“Sua truculência não é rebeldia, é niilismo”: Carta aberta de um ex-fã ao Lobão

décadence sans élégance
Pedro Sprejer, Polivox / Diário do Centro do Mundo

'Eu te acompanho desde meados dos anos 80, quando, ainda criança, pulava na frente da TV e do rádio ao som de “Vida Bandida” e “Corações Psicodélicos”.

Essas e outras canções constituíram o meu repertório afetivo-musical e sempre olho para elas com carinho. Hoje, entretanto, sua voz me soa amarga. Acho que cansei dela. E me atrevo a falar em nome de outros fãs que estão desapontados com o papelão que você tem feito por aí.

Você e Cazuza foram os artistas mais provocadores da geração 80, os mais autênticos. Cazuza foi um libertário genial, com sua ironia, homossexualidade escancarada, e entrega total à vida. E você, com um rock maníaco-depressivo foi mesmo uma ovelha negra dentro da MPB, como gosta de dizer.

19 abril, 2014

Os meninos de luz ceifados pela barbárie

, GGN

"Os mais espiritualizados diriam que a humanidade é composta pela massa informe dos que vieram de passagem pela vida, buscaram promoção pessoal ou não, acomodaram-se na carreira profissional ou não, mas fecharam-se em seu mundinho murado, não se expondo aos desafios da vida nem à luz dos sentimentos maiores, incapazes de celebrar a beleza ou se indignar com os absurdos da vida.

Sobem quando encontram espaço; resignam-se, quando expostos a obstáculos.
Mas há as crianças de luz, aquelas que nasceram com a garra dos predestinados, com a indignação dos que jamais se curvariam às vicissitudes da vida. E aquelas que, dotadas da força iinterna dos iluminados, foram ceifadas pela força bruta dos bárbaros.

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Com 8 anos de idade, morador da Vila Kennedy, na zona Oeste do Rio, o menino Alex Moraes
Soeiro era um deles.

18 abril, 2014

Mil cópulas não valem um grande beijo

, Diário do Centro do Mundo 

"Pedro estava em seu pequeno apartamento de jornalista solteiro. O clássico entre os jornalistas: muitos livros e discos, pouca ou nenhuma organização, garrafas variadas de bebida, comida precária. Roupas, em geral baratas, espalhadas pelos cômodos, algumas delas no chão. Gravuras bem escolhidas, e jamais caras, nas paredes. Alguns pôsteres. Um deles, seu predileto, mostrava a cena final de Butch Cassidy: os dois mocinhos feridos, revólveres em ambas as mãos, correndo rumo à morte ignorada. Um retrato do pai. Pedro estava deitado na cama baixa.

“Gostaria tanto de ter dado um jeito em seu apartamento e em você”, disse Carol. Ela estava se vestindo, na beira da cama, e ao mesmo tempo indo embora. Naquela tarde, tinha avisado a Pedro que o caso deles acabara. O marido banqueiro começara a suspeitar de que algo estranho estava acontecendo com a mulher, e tudo ficara complicado.

17 abril, 2014

Ninguém consegue viver de janelas fechadas

, Revista Bula

Imagine abrir sua janela ao acordar e, do mesmo modo que as lagartas magicamente se borboleteiam pelas paisagens da vida, encontrar uma fruta que se oferece a você. Clama por seu gesto de sorvê-la inteira. Entregando assim sua gratidão a um dos tantos presentes que a natureza diariamente lhe dá, sem exigir nada em troca.

Saber receber é uma arte. Abrir os braços, o sorriso, o corpo e o coração e dispor-se aceitar quem estende o afeto a você. Receber exige coragem. Integridade. Desejo. Iniciativa. Transparências do querer genuíno. Quantas vezes ansiamos por algo ou por alguém, mas amortecemos as vontades, anulando-as até, enquanto trancamos nossas demandas nas gavetas da privação.

Por absurdo que pareça é mais fácil morrermos de fome. Agarrarmo-nos a uma soberba imbecil, estruturada na deplorável e ilusória onipotência de sermos autossuficientes. Autotróficos como as plantas, que extraem do solo a nutrição de que necessitam.

16 abril, 2014

Você é viciado em sexo?

, DCM

"O Buda tinha o seguinte método de se livrar de um desejo sexual inoportuno.

Imaginava a mulher excitante que o provocava sexualmente como uma velhota, uma Sophia Loren aos 75 parecida com o Cauby. Envelhecia-a. Podia até transformá-la mentalmente num cadáver putrefato, como aqueles que você vê em filme de terror, carne se descolando do osso num espetáculo, para usar palavras de Euclides, truanesco e pavoroso.

Acabou.

É um bom método, a não ser pelo detalhe de que nem todo mundo tem a força mental do Buda.

O viciado em sexo, ou a viciada, tem mecanismos mentais opostos aos do Buda. O cara vê uma mulher e, em vez de pensar em algo que lhe subtraia o apelo, imagina-a nua, lânguida a seu dispor. A viciada faz o mesmo.

Quanto a mim, não, não sou viciado, embora coloque o sexo na mesma lista sagrada de delícias como o Nescau e a música dos Beatles na primeira fase, a da franja e dos risos. Mesmo sem ser o Buda, recorro quando necessário à mesma artimanha adotada por ele.

Quase sempre funciona."

15 abril, 2014

Era uma vez o amor em sua primeira vez

, Revista Bula

"Então é isso. Já vão longe a espera, o frio na barriga, a data agendada. Nós conseguimos! Entre sete bilhões de pessoas no mundo, você e eu nos encontramos. Sabe-se lá por obra do quê, de quem, mas nos achamos. Somos dois e cá estamos, cada um em seu canto e a seu tempo dizendo: enfim, nós.

Mas e depois disso? Vem o quê? O que acontece agora que não há mais segredo, que passou o encontro breve depois da espera longa? Agora que passamos da condição de completos estranhos para a de recém-conhecidos tateando no escuro corredor que leva ao coração do outro? O que vem depois da primeira vez?

Você não sabe, não deve ter percebido, mas no instante ligeiro da nossa garrafa de vinho inicial eu saltei várias vezes para um tempo em que jamais estivemos, mas que desde sempre se fez nosso. Vi nossos futuros encontros, nossas próximas vezes, nossos dias seguintes, nossas noites vindouras.

14 abril, 2014

Eu não mereço ser encoxado

, Revista Bula

"Quando me dei conta, tinha um sujeito bufando atrás de mim, e não era um zagueiro de futebol fazendo uma marcação homem a homem, embora, admitamos, a vida é um jogo escroto. Aconteceu que eu viajava em pé dentro de um metrô lotado quando, sem que eu percebesse — juro por Deus, prezados ateus! — um camarada esfregou-se pra valer na minha mochila de couro de ornitorrinco (suponho que, na confusão do aperto, o folgado supusesse que a tal mochila não era uma mochila, se é que me entendem) ao ponto dele ouvir os sininhos dobrarem e quase acender um cigarro dentro daquele compartimento infernal hermeticamente fechado, o qual os gestores públicos chamam, cinicamente, “meios de transporte em massa”. Massa mesmo seria que os encoxadores contumazes se ocupassem com eles, pois, a cambada de burocratas jamais carrega mochilas. Quando muito, os safados carreiam dólares nas meias ou nas cuecas.

Não só parece inverossímil, como, de fato, é a mais pura e deslavada mentira o que acabo de lhes contar. Não fui vítima de um encoxamento gay, graças ao ornitorrinco (que Deus o tenha no Céu dos animaizinhos!). O que eu desejo mesmo é contar-lhes a respeito de Narciso, que foi capturado por populares, por conta de um comportamento impopular dentro de um trem abarrotado de coitadinhos com destino a Cudojudas.