25 outubro, 2014

A falácia da Meritocracia


Nairan Ballesta, Pragmatismo Político

"É tendência comum supor que, em relação a resultados esperados, se deva priorizar aquelas pessoas que demonstram talento e esforço pessoal na solução de problemas ou na busca de se sobressair diante da competitividade, e escolher essas pessoas para assumirem posições criticas e importantes de decisão ou responsabilidade na execução de tarefas, sejam particulares, sejam públicas. Dito dessa forma pode parecer natural e justo que sistemas meritocráticos assumam prevalência e preponderância sobre outras formas de escolha e definição de prioridades ou oportunidades em empresas, governos e entidades sociais. No entanto é cada vez mais frequente a percepção de que os sistemas meritocráticos se mostram injustos, discriminatórios, segregacionistas e que criam sérios problemas burocráticos, sociais e políticos nas sociedades em que são aplicados, tanto que nenhuma sociedade atual possui um sistema totalmente meritocrático em aplicação, apesar da meritocracia estar presente em maior ou menor grau em praticamente todas elas.

Pois bem, então onde reside o problema com a meritocracia, e porque ela se mostra tão dúbia e é tão fortemente contestadas por tantas pessoas?
Bem, me aventuro a dizer que em meus pensamentos sobre essa questão levantei algumas hipóteses e desenvolvi algumas idéias sobre essa questão e vou buscar apresentar algo dessas idéias nesse trabalho.

24 outubro, 2014

O fascismo aqui e no cinema de Rossellini


"Hibernando ou dissimulado no recôndito da (in)consciência, de tempos em tempos o fascio di combattimento de Mussolini irrompe sob a forma da intolerância

Léa Maria Aarão Reis, Carta Maior

Roma, cidade aberta é um dos grandes clássicos do cinema. Filme que deve ser visto e revisto para que não se perca nunca a perspectiva da violência do fascismo como ideologia política e arma de dissolução da convivência entre contrários na vida cotidiana dos indivíduos.

Hibernando ou dissimulado no recôndito da (in)consciência, de tempos em tempos o fascio di combattimento de Mussolini irrompe sob a forma da intolerância, insultos, intimidação, racismo, discriminação e força bruta até nos que pareciam imunes ao veneno - como vemos ocorrer no Rio e em São Paulo em violentas manifestações públicas, por enquanto individuais, nos últimos dias do período eleitoral.

23 outubro, 2014

A gratidão é uma flor sentida, delicada e bela

André J. Gomes, Revista Bula

"Numa cidade do interior, dessas que existem para além do tempo, para dentro de uma lembrança, uma cidadela entre o nada e o lugar nenhum, recanto de meia dúzia de vidas onde a beleza mora nas coisas minúsculas e nos gestos simples, uma vila onde a vida se passa no chão, sob as árvores, junto aos bichos e às plantas, ali vive um homem agradecido.

É bom você não esperar muito dele. Não é pessoa de tantas habilidades, não foi capaz de grandes feitos, não realizou amplas obras agrícolas, não construiu famílias centenárias nem inventou mecanismos revolucionários de aproveitamento da água da chuva. É só um homem comum, mas guarda no peito uma rara gratidão.

Todos os dias, de manhã, mas de manhã mesmo, antes do sol chegar, quando as aves cochilam no escuro e o amor se forma em silêncio no sono dos amantes, esse homem pula da cama e caminha até um canteiro simples. Ali, reza uma prece curta e bela, os pés descalços no chão chuviscado de orvalho, e toma emprestadas da terra as rosas de tantas cores que lá esperam cumprir seu destino de flor.

22 outubro, 2014

A picaretagem de Lindsay Lohan e Naomi Campbell e o apoio de celebridades a políticos

É tóis
DCM

"O apoio de gente famosa a políticos ou causas serve, de maneira geral, como uma via de mão dupla: candidatos podem ter credibilidade, mas não têm fãs ardorosos; celebridades têm fãs ardorosos, mas não credibilidade.

Para os artistas, é uma oportunidade de parecer que eles se importam com algo além de si mesmos. Ajudam também, em tese, a humanizar o político com um toque pop.

Em tese.

Não existe uma pesquisa que ateste que alguém votou por causa do que o cantor ou o ator falaram. Uma pesquisa nos EUA, onde o culto maluco ao celebritismo nasceu e virou um monstro, registrou que menos de 10% dos eleitores foi influenciado pelo apoio de um famoso nas eleições de 2004.

A falta de resultado prático não impede marqueteiros de abusar de depoimentos. Esta campanha ficou marcada por três flops globalizados.

21 outubro, 2014

Muito riso e pouco siso

A exploração de Dante do mundo espiritual mostrado em um exemplar da Divina Comédia, em um afresco de Michelino
"O inferno é infinitamente mais interessante do que o purgatório e o céu. No inferno nos identificamos, lá se encontram nossos vícios, os vícios humanos

Menalton Braff, CartaCapital

Pessoa de minha total confiança foi quem me contou. Uma dessas loiras contratadas por canais de televisão para divertir e instruir o povo brasileiro foi pega cometendo o que mais elas cometem: uma gafe dantesca. São esses os momentos em que mais sentimos a falta do Stanislaw Ponte Preta. Sentimos nós, os que tiveram a ventura de viver numa época em que ele vivia. E escrevia. Seu Festival de Besteiras que Assolam o País, além de fazer as delícias de uma geração inteira, era uma válvula na panela de pressão, que foi a ditadura de 1964, mas não eram besteiras apenas de políticos. Uma de suas frases mais célebres ─ “Televisão é máquina de fazer doido” ─ comprova a abrangência de seu olhar arguto e caberia muito bem neste caso relatado por meu amigo.

A dita loira, interrogada por alguém sobre A divina comédia, de Dante (mas isso também já é crueldade), não teve dúvida e lascou, com a maior cara-de-pau, que tinha rido do início ao fim do livro.  Pobres meninas, obrigadas que são, no fogaréu de programas ao vivo, a fingir o que não são porque não podem decepcionar seu público sempre ávido por heroínas.

20 outubro, 2014

Amor à pátria é o cacete. Eu gosto mesmo é de dinheiro


Eberth Vêncio, Revista Bula

 "É época de eleições no Brasil. Os ânimos e a intolerância estão exaltados, e o país parece muito claramente dividido em duas vertentes políticas que, ao menos nos discursos dos candidatos e nas bravatas das redes sociais, parecem antagônicas. Se bem que, depois que o Homem Sem Dedos e O Caçador de Marajás beijaram-se na boca, nada mais parece tão diferente e inovador como se supunha.

Ciganas honestas, marqueteiros velhacos, Adelaide — minha anã paraguaia — e os institutos de pesquisa e manipulação de massas garantem que, no momento, há um empate técnico entre os dois candidatos a Presidência.

19 outubro, 2014

“Uma negra furiosa”: Quem é Shonda Rhimes, o cérebro mais cobiçado da TV

Shonda Rhimes


Publicado no El Pais.

“Uma mulher negra furiosa”. Assim uma colunista do New Tork Times qualificou Shonda Rhimes, o cérebro mais poderoso atualmente na televisão, esse que está por trás de séries tão populares como Grey’s Anatomy e Scandal. E se há duas coisas que você não pode mencionar para esta showrunner é sua raça ou sexo. Esta mulher oriunda dos subúrbios de Chicago, de 44 anos, não renega nem o fato de ser mulher nem negra. Mas, como diz em entrevista exclusiva a EL PAÍS, “um roteirista é um roteirista e é um roteirista. É isso”.

“As coisas estarão melhores quando deixarmos de fazer essas perguntas. Quando não nos perguntarmos se está melhor a presença de mulheres na televisão ou quantas mulheres negras trabalham no meio”, acrescenta, entre irada e engraçada. O único sonho de Rhimes é que chegue o dia em que aquilo que ela faz não seja a exceção, mas a regra. Porque, como insiste, ninguém descreve Vince Gilligan, responsável por Breaking Bad, como “o melhor homem branco” criador de séries.

18 outubro, 2014

Sobre as provas equivocadas de amor


, DCM

"Sempre desconfiei de amores que precisam ser provados. Porque os amores verdadeiros que conheço estão subentendidos. Nota-se nos olhos, no modo como se pronuncia o nome um do outro, na importância que se dá aos menores detalhes.

Amores genuínos não precisam ser referendados publicamente, porque até um cego pode vê-lo. Os amores verdadeiros dispensam contratos, alianças e status de relacionamento nas redes sociais. Embora, muitas vezes, nada prove que ele está ali, ninguém se atreve a duvidar.

Tenho visto, entretanto, gente que transforma a relação em um verdadeiro inferno em nome desta certeza incompreensível de que amor que é amor precisa ser provado – pra si mesmo e para o mundo. Principalmente para o mundo. Gente viciada em exagero, em protocolos inúteis e em atenção.

17 outubro, 2014

No fundo, nossa única certeza é a de que estamos na dúvida


André J. Gomes, Revista Bula

"Pode reparar. Por mais que tenhamos crescido, por mais que o tempo nos leve longe e os anos passem varrendo lembranças, distorcendo fatos antigos, apagando rostos e imagens como em velhas fotografias, por mais que aprendamos a ser adultos no comando seguro de cada passo, há sempre um medo infantil que nos resta. Sempre um monstro esperando debaixo da cama, desafiando com olhos de fogo e coração pequeno nossa coragem de gente grande. Vistos assim, você e eu e todos aqui somos iguais.

Há uma hora, lá pelas tantas da vida, em que nos tornamos idênticos. Há um tempo em que retornamos à nossa condição original de bichos, trêmulos animais de casa acuados, atraídos pela luz e o calor do fogo no frio caminho solitário em que se transforma a vida de quando em vez. Os monstros continuam ali.

16 outubro, 2014

“A igreja está finalmente abrindo as portas para os gays”


Publicado no Unisinos /

"Elas moram em uma casa como qualquer outra em uma rua como qualquer outra com uma minivan Honda na garagem e abóboras, fantasmas e cabeças de esqueleto que enfeitam o pequeno jardim da frente em preparação para o Halloween [dia das bruxas]. Fini, 11 anos, foi, ontem, à loja de fantasias e voltou com um traje de bailarina zumbi e batom preto. Emily, 12 anos, comprou uma fantasia de índia norte-americana. Agora, está tudo preparado para a festa do dia das bruxas. Poucos minutos antes das 6 da tarde, a mãe Becky chega em casa com caixas de pizza do Pizza Hut e elas comem antes de começar uma noite agitada de lições de casa, limpeza, chuveiro e de preparações para ir dormir cedo.

Nada de anormal aqui. Apenas uma típica família americana em uma típica noite durante o ano letivo nos Estados Unidos, com exceção disso: Becky é casada com Marianne. Fini e Emily têm duas mães.

A mãe Marianne é, na verdade, Marianne Duddy-Burke, diretora executiva nacional da Dignity USA, uma organização que existe há 41 anos, e que trabalha pela mudança nos ensinamentos da Igreja Católica sobre gays e lésbicas.

15 outubro, 2014

Da arriscada e deliciosa arte de provocar um cretino


André J. Gomes, Revista Bula

"Um dia, desses dias definitivos na vida de toda gente, um homem ordinário olhou para os lados e se viu cercado de idiotas. Era isso. Estavam explicados a sua insônia, sua falta de apetite, sua impotência sexual, sua raiva do mundo, sua apatia no trabalho. Ele acabara de descobrir a causa de suas mazelas. O mundo lhe fazia mal porque estava povoado de imbecis. Pronto. Essa era a sua doença, ele estava diagnosticado! Agora só faltava iniciar um tratamento radical: daquele dia em diante, o homem dedicou seu tempo a catalogar e punir os patetas que encontrasse vida afora.

Começou com os estúpidos da empresa em que trabalhava, os arrogantes que supervalorizam assuntos mínimos em reuniões intermináveis para mostrar eficiência e esconder sua escandalosa barbeiragem. Seu ataque era simples e impecável: antes de uma reunião, ele consumia toda sorte de alimentos que lhe provocassem gases intestinais. Leite, paçoca, empadinha, café melado, canjica e abacate, muito abacate.