19 abril, 2014

Os meninos de luz ceifados pela barbárie

, GGN

"Os mais espiritualizados diriam que a humanidade é composta pela massa informe dos que vieram de passagem pela vida, buscaram promoção pessoal ou não, acomodaram-se na carreira profissional ou não, mas fecharam-se em seu mundinho murado, não se expondo aos desafios da vida nem à luz dos sentimentos maiores, incapazes de celebrar a beleza ou se indignar com os absurdos da vida.

Sobem quando encontram espaço; resignam-se, quando expostos a obstáculos.
Mas há as crianças de luz, aquelas que nasceram com a garra dos predestinados, com a indignação dos que jamais se curvariam às vicissitudes da vida. E aquelas que, dotadas da força iinterna dos iluminados, foram ceifadas pela força bruta dos bárbaros.

**
Com 8 anos de idade, morador da Vila Kennedy, na zona Oeste do Rio, o menino Alex Moraes
Soeiro era um deles.

18 abril, 2014

Mil cópulas não valem um grande beijo

, Diário do Centro do Mundo 

"Pedro estava em seu pequeno apartamento de jornalista solteiro. O clássico entre os jornalistas: muitos livros e discos, pouca ou nenhuma organização, garrafas variadas de bebida, comida precária. Roupas, em geral baratas, espalhadas pelos cômodos, algumas delas no chão. Gravuras bem escolhidas, e jamais caras, nas paredes. Alguns pôsteres. Um deles, seu predileto, mostrava a cena final de Butch Cassidy: os dois mocinhos feridos, revólveres em ambas as mãos, correndo rumo à morte ignorada. Um retrato do pai. Pedro estava deitado na cama baixa.

“Gostaria tanto de ter dado um jeito em seu apartamento e em você”, disse Carol. Ela estava se vestindo, na beira da cama, e ao mesmo tempo indo embora. Naquela tarde, tinha avisado a Pedro que o caso deles acabara. O marido banqueiro começara a suspeitar de que algo estranho estava acontecendo com a mulher, e tudo ficara complicado.

17 abril, 2014

Ninguém consegue viver de janelas fechadas

, Revista Bula

Imagine abrir sua janela ao acordar e, do mesmo modo que as lagartas magicamente se borboleteiam pelas paisagens da vida, encontrar uma fruta que se oferece a você. Clama por seu gesto de sorvê-la inteira. Entregando assim sua gratidão a um dos tantos presentes que a natureza diariamente lhe dá, sem exigir nada em troca.

Saber receber é uma arte. Abrir os braços, o sorriso, o corpo e o coração e dispor-se aceitar quem estende o afeto a você. Receber exige coragem. Integridade. Desejo. Iniciativa. Transparências do querer genuíno. Quantas vezes ansiamos por algo ou por alguém, mas amortecemos as vontades, anulando-as até, enquanto trancamos nossas demandas nas gavetas da privação.

Por absurdo que pareça é mais fácil morrermos de fome. Agarrarmo-nos a uma soberba imbecil, estruturada na deplorável e ilusória onipotência de sermos autossuficientes. Autotróficos como as plantas, que extraem do solo a nutrição de que necessitam.

16 abril, 2014

Você é viciado em sexo?

, DCM

"O Buda tinha o seguinte método de se livrar de um desejo sexual inoportuno.

Imaginava a mulher excitante que o provocava sexualmente como uma velhota, uma Sophia Loren aos 75 parecida com o Cauby. Envelhecia-a. Podia até transformá-la mentalmente num cadáver putrefato, como aqueles que você vê em filme de terror, carne se descolando do osso num espetáculo, para usar palavras de Euclides, truanesco e pavoroso.

Acabou.

É um bom método, a não ser pelo detalhe de que nem todo mundo tem a força mental do Buda.

O viciado em sexo, ou a viciada, tem mecanismos mentais opostos aos do Buda. O cara vê uma mulher e, em vez de pensar em algo que lhe subtraia o apelo, imagina-a nua, lânguida a seu dispor. A viciada faz o mesmo.

Quanto a mim, não, não sou viciado, embora coloque o sexo na mesma lista sagrada de delícias como o Nescau e a música dos Beatles na primeira fase, a da franja e dos risos. Mesmo sem ser o Buda, recorro quando necessário à mesma artimanha adotada por ele.

Quase sempre funciona."

15 abril, 2014

Era uma vez o amor em sua primeira vez

, Revista Bula

"Então é isso. Já vão longe a espera, o frio na barriga, a data agendada. Nós conseguimos! Entre sete bilhões de pessoas no mundo, você e eu nos encontramos. Sabe-se lá por obra do quê, de quem, mas nos achamos. Somos dois e cá estamos, cada um em seu canto e a seu tempo dizendo: enfim, nós.

Mas e depois disso? Vem o quê? O que acontece agora que não há mais segredo, que passou o encontro breve depois da espera longa? Agora que passamos da condição de completos estranhos para a de recém-conhecidos tateando no escuro corredor que leva ao coração do outro? O que vem depois da primeira vez?

Você não sabe, não deve ter percebido, mas no instante ligeiro da nossa garrafa de vinho inicial eu saltei várias vezes para um tempo em que jamais estivemos, mas que desde sempre se fez nosso. Vi nossos futuros encontros, nossas próximas vezes, nossos dias seguintes, nossas noites vindouras.

14 abril, 2014

Eu não mereço ser encoxado

, Revista Bula

"Quando me dei conta, tinha um sujeito bufando atrás de mim, e não era um zagueiro de futebol fazendo uma marcação homem a homem, embora, admitamos, a vida é um jogo escroto. Aconteceu que eu viajava em pé dentro de um metrô lotado quando, sem que eu percebesse — juro por Deus, prezados ateus! — um camarada esfregou-se pra valer na minha mochila de couro de ornitorrinco (suponho que, na confusão do aperto, o folgado supusesse que a tal mochila não era uma mochila, se é que me entendem) ao ponto dele ouvir os sininhos dobrarem e quase acender um cigarro dentro daquele compartimento infernal hermeticamente fechado, o qual os gestores públicos chamam, cinicamente, “meios de transporte em massa”. Massa mesmo seria que os encoxadores contumazes se ocupassem com eles, pois, a cambada de burocratas jamais carrega mochilas. Quando muito, os safados carreiam dólares nas meias ou nas cuecas.

Não só parece inverossímil, como, de fato, é a mais pura e deslavada mentira o que acabo de lhes contar. Não fui vítima de um encoxamento gay, graças ao ornitorrinco (que Deus o tenha no Céu dos animaizinhos!). O que eu desejo mesmo é contar-lhes a respeito de Narciso, que foi capturado por populares, por conta de um comportamento impopular dentro de um trem abarrotado de coitadinhos com destino a Cudojudas.

13 abril, 2014

A inveja: o maior dos meus pecados

Vocês não podem imaginar como invejo alguns cronistas, como é o caso do Deonísio, sobretudo nestas épocas em que o futebol é assunto obrigatório
"Vocês não podem imaginar como invejo alguns cronistas, como é o caso do Deonísio, sobretudo nestas épocas em que o futebol é assunto obrigatório 

Menalton Braff, CartaCapital

De todos os meus pecados, que não são poucos, a inveja talvez seja aquele que terá maior peso na minha condenação aos fogos infernais. Vocês não podem imaginar como invejo alguns cronistas, como é o caso do Deonísio, sobretudo nestas épocas em que o futebol é assunto obrigatório. Enquanto ele fala de futebol, e fala com propriedade, porque conhece, fico meio cabreiro no meu canto, calado, com medo de dizer besteira. Não posso e não devo me meter a falar daquilo que não entendo. Tempos atrás o Deonísio da Silva enviou-me por e-mail uma crônica linda e divertida em que futebol e filosofia se cruzavam na rapidez com que ele costuma nos driblar. Fala de acertos e desacertos de técnicos e jogadores com a segurança que me mata de inveja. E é só por inveja que hoje resolvi enfiar meu bedelho no assunto.

12 abril, 2014

Não se ofenda com a minha nudez, não quero agredir

 , Diário do Centro do Mundo

"Desde pequena, vejo seios e bundas à mostra em todos os lugares por onde passo. A cada esquina, tem uma banca de jornal com seus cartazes nada modestos. Nos filmes, nas novelas. Nem preciso falar do carnaval. Se alguém ligou a tevê semana passada, deve ter visto alguma mulata sambando totalmente nua.

Nem sempre os closes no rego das dançarinas de programas de auditório me parecem belos. E confesso torcer o nariz para muitas das fotos de genitálias ampliadas que vejo diariamente no Twitter. Mesmo assim, ainda me encanto com o desenho de um seio em riste, de um bumbum bem desenhado. A harmonia das formas naturais do ser humano atrai. A nudez é uma forma artística. Corpos despidos são talvez a maior fonte de inspiração dos artistas plásticos, desde os primórdios da história da arte.

11 abril, 2014

A teoria de Darwin aplicada às popozudas

, Revista Bula

"Hoje quero comentar sobre o processo de seleção e evolução das mulheres exuberantes. Mas peço um pouquinho de paciência ao leitor. Antes é preciso fazer alguns comentários introdutórios.

O capitalismo turbinado vigente, em que as pessoas são cegamente submetidas às leis do mercado, é uma espécie de sociedade darwinista. Ou seja, vigora a lei do mais apto. O filósofo Herbert Spencer, não sei se por ignorância ou por pura má-fé, adaptou o princípio da “lei do mais apto” para a “lei do mais forte” e ajudou a dar sustentação ideológica ao Nazismo de Hitler, com sua superstição de raça superior ariana.

Não vamos lucubrar aqui aonde esta coisa de sociedade darwinista vai dar. Penso, sem maiores fundamentações, que vai ser mais ou menos como aquela anedota do pessimista e do otimista. O otimista supõe que no futuro, quem quiser sobreviver, vai ter que comer estrume. Já o pessimista acha que não vai ter estrume pra todo mundo.

10 abril, 2014

Os 10 melhores poemas de Carlos Drummond de Andrade

"Pedimos a 20 convidados — escritores, críticos, jornalistas — que escolhessem os poemas mais significativos de Carlos Drummond de Andrade. Cada participante poderia indicar entre um e 10 poemas. Coincidentemente, não houve votos repetidos, o que só evidencia a grandeza e a vastidão da obra do poeta mineiro.

Desde de 2011, Carlos Drummond de Andrade ganhou o Dia D, inspirado no Bloomsday, o dia dedicado ao escritor irlandês James Joyce. A data, 31 de outubro, aniversário do poeta, é comemorada no Brasil e em Portugal.

, Revista Bula

A Máquina do Mundo 

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.'

Matéria (Poema) ::AQUI::

09 abril, 2014

Para que serve a filosofia na vida prática

Marco Aurélio, o imperador filósofo.
, Diário do Centro do Mundo 

"A filosofia existe para que as pessoas possam viver melhor. Sofrer menos. Lidar melhor com as adversidades. Enfrentar serenamente o perpétuo vai-e-vem de elevações e quedas, para citar uma grande frase de um filósofo da Antiguidade. A missão essencial da filosofia é tornar viável a busca da felicidade.

Todos os grandes pensadores sublinharam esse ponto. A filosofia que não é útil na vida prática pode ser jogada no lixo. Alguém definiu os filósofos como os amigos eternos da humanidade. Nas noites frias e escuras que enfrentamos no correr dos longos dias, eles podem iluminar e aquecer. A filosofia apóia e consola.

Um aristocrata romano chamado Boécio (480-524) era rico, influente, poderoso. Era dono de uma inteligência colossal: traduziu para o latim toda a obra de Aristóteles e Platão. Tudo ia bem. Até o dia em que foi acusado de traição pelo imperador e condenado à morte. Foi torturado. Recebeu a marca dos condenados à morte de então: a letra grega Theta queimada na carne.