27 julho, 2014

Como lidar com o medo do futuro segundo os filósofos da antiguidade


, Diário do Centro do Mundo 

Escrever sobre filosofia aplicada ao dia a dia foi uma das tarefas mais divertidas de minha carreira. Eu tinha uma coluna na revista Vida Simples. O nome era autoexplicativo: “Os Sábios e Nós: como eles podem nos ajudar”.
Revi, há pouco, alguns dos textos.

Parei num deles. É um elogio da imprevidência. Há aí algo de provocador, mas existe bem mais que isso. Faça sua previdência, cuide da poupança, mas não se deixe esmagar por preocupações sobre o futuro.

O sábio é um imprevidente. Vive apenas o dia de hoje. Não pensa no futuro. Não planeja nada. Não se atormenta com o que pode acontecer amanhã. Eis um conceito comum a quase todas as escolas filosóficas: o descaso pelo dia seguinte. Mesmo em situações extremas.

26 julho, 2014

Nós reparamos na bunda sim: sobre esta e outras mentiras que contam sobre mulheres



Nathalí Macedo, Entenda os Homens

'Cresci ouvindo – e, lamentavelmente, muitas vezes, absorvendo – centenas de mentiras que as pessoas contam sobre o universo feminino. Especialmente sobre a sexualidade feminina.

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Ouvi dizer, por exemplo, que gostávamos menos de sexo – antes mesmo de saber como se fazia sexo. Por isso achei estranho quando comecei a gostar tanto quanto ou mais que os homens que conheço. Porque eu ouvira que uma mulher não pensa em sexo com freqüência – não porque ela não pode, mas porque ela não “quer”. Como se houvesse alguma determinação genética a respeito.

Disseram-me que nós éramos menos promíscuas. Que a gente queria mesmo era casar e ter filhos e um cachorro, porque querer sexo casual era coisa de homem. Nós somos românticas. Eu ouvi alguns homens dizerem que eu gosto de receber flores e chocolate e sair pra jantar e que eu não tenho tendência à traição porque, afinal, minhas necessidades sexuais são menos expressivas.

25 julho, 2014

Para Ariano Suassuna, um homem de ideias e sonhos


, Revista Bula

"Nesta terra da saúde que o cabra põe doente, onde morre tanta gente e a vileza nunca para, mulher apanha na cara e homem faz o que quer, um rei meio quixote, meio doutor, desceu da realeza pra ver de perto a pobreza, sentir toda a sua dor. E pra ajudar seu povo de um a um, tirou a coroa e saiu à toa, vestido de pessoa comum.

Andando pra todo lado, de jeito santo e letrado, o rei feito andarilho viu o mundo, desceu ao fundo, cada pai e cada filho e cada mãe, ouviu o velho, ouviu o novo com paciência, gente de toda idade, pra entender de verdade a querência de seu povo.

24 julho, 2014

Ele só quer te comer: por que esse discurso não deveria incomodar


O texto abaixo, de Nathalie Macedo, foi publicado no site casal sem vergonha. / Diário do Centro do Mundo 

"Você conheceu um cara incrível ontem. Ele é amigo do namorado da amiga da sua amiga. Não importa, ele gostou de você. Gostou do seu batom vermelho, do seu riso debochado e do cheiro que sentiu quando você chegou perto pra dar um ‘oi’. A malícia nos olhos dele deixou claro que ele sabia o que o seu oi significava: você queria fumar um cigarro, nua, na janela do apartamento dele, enquanto ele adormecia, exaustivamente satisfeito, com os seus gemidos ainda ecoando no quarto desarrumado.

E você – cujos olhos têm malícia também – soube ler no sorriso dele que ele queria mesmo arrancar seu sutiã no final da noite. Sem ter que pedir seu e-mail, nem conhecer sua mãe, nem saber qual é o seu prato preferido e nem te chamar pra jantar no japa.

23 julho, 2014

Meu bairro e a Faixa de Gaza


José Ribamar Bessa Freire, Correio do Brasil

"Confesso, humilde, que não entendo bulhufas de política internacional, por isso não comento os acontecimentos na Faixa de Gaza. Nem os do território palestino, nem sequer os das favelas cariocas. Nada sei fora do bairro de Aparecida, em Manaus. A Isis que conheço é uma caboca peitudinha que mora no Beco da Escola, fica saliente ao ver farda e lembra saudosa dos amassos escandalosos do Geraldão, tenente do NPOR. De Gaza, ignoro as fofocas, que é a forma suprema do saber. Sei apenas que ISIS é a sigla do grupo que luta por um Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Nada mais.

Gaza está tão longe e Aparecida tão perto! Mas de repente, Gaza ficou mais perto de mim do que o bairro onde nasci, porque mexe com o que existe de profundo em cada um de nós: a nossa humanidade. Ninguém precisa fumar cachimbo e usar boina basca como os comentaristas internacionais ou fingir inteligência como a equipe do Manhattan Connection para saber que o que está acontecendo em Gaza é um exemplo acabado da estupidez, que nos traz tanto desencanto e compromete o destino da espécie humana.

22 julho, 2014

Carta aberta a você que ainda acredita no amor


, Revista Bula

"Você sabe que tem gente se matando agora, não sabe? Tem um povo bombardeando outro, crianças apavoradas, mulheres subjugadas. Uns homens soltam bombas, outros prendem o choro. Edifícios desabam fáceis, sob a mira dos mísseis prateados, impecáveis. Famílias se desmancham como papelão na enxurrada, canalhas fogem com o dinheiro do povo. Ódio vira regra, medo se faz prática, desespero se torna música. O sucesso de audiência é a nossa escandalosa miséria de todos os dias.

E você, decerto, já se deu conta do quanto sobrevivemos desviando, esquivando, escapando, correndo uns contra os outros. Não que eu acredite que isso tudo vá mudar por obra da nossa mais pura e simples vontade esperneada. Mas eu tenho a impressão de que a gente devia passar mais tempo juntos, sabe?

Porque assim, juntos, talvez a gente perceba, cheios de vergonha, o quanto se deixou convencer de que essa porcaria toda é “normal”. Normal, assim, como um cachorro ordinário que morde o outro porque tem todos aqueles dentes pontudos e eles não podem ficar ali na bocarra sem uso e você sabe, cachorro morde mesmo, morde por puro instinto.

21 julho, 2014

Como vivíamos sem?

eças publicitárias de estilo vintage para produtos atuais, uma criação da agência Moma
"Como era possível viver num mundo sem essas coisas todas que existem hoje?

Alberto Villas, CartaCapital

No meu tempo não tinha televisão! Essa frase me perseguiu durante toda a minha infância. O meu pai dizia isso toda vez que percebia uma novidade no ar ou via uma pontinha de progresso entrando pela porta da sala da nossa casa.

Durante décadas e décadas, ouvimos que quando ele era menino, o sucesso era um rádio GE que ficava no saguão do hotel do seu pai, meu avô. Era dali que saiam as notícias da guerra, a sonoplastia bizarra das radionovelas, a voz de Aracy de Almeida cantando Palpite Infeliz e os gritos de gol de Oduvaldo Cozzi.

O meu pai parecia se orgulhar de ter vivido num mundo sem televisão. Quando os seus filhos se reuniam para ir ver Os Jetsons  na casa da vizinha, ele achava que o mundo estava acabando, que aquela invenção era a maldição do século, século passado.

20 julho, 2014

De tão besta, esta crônica vai ficar sem título


, Revista Bula

"O frisson que aquela mulher provocou nos homens durante a festa de aniversário do Toninho até hoje reverbera no sono e na sina de um quarteto de marmanjos claudicantes à beira da andropausa. Pensem numa mulher tão bonita de fazer gaguejar, de fazer perder a fala, de fazer inflar o falo, de fazer latir um fila, cuja nuca com tez de pêssego levava tatuada a seguinte recomendação em letras cursivas, garrafais: “Sonhe”.

Ora, os sonhos vêm boiando em garrafas. Assim mesmo, do nada. Portanto, praquele quarteto de amigos do peito, o verbo era muito mais que um pedido. Tanto assim que os quatro não fizeram outra coisa àquela noite senão sonharem de quatro e fantasiarem ser o chapéu que cobriria a cabeça daquela caetana gata extraordinária a balançar confiante feito um Titanic, ao som de “You can leave your hat on”, na voz rouca do Joe Cocker.

Desespero de náufragos: “Pelo amor de Deus, quem é aquela criatura?”, eles queriam saber, mas Deus não lhes deu ouvidos. Acontece que a matilha de cinquentões experimentados — eles estudaram juntos desde o colégio das freiras monossilábicas, um período da vida em que sopitavam testosterona pelos olhos e competiam campeonatos de punheta em série dentro dos vestiários, na hora do recreio, inspirados principalmente no corpinho disfarçado da Irmã Valentina que, na opinião da maioria, nunca na vida deveria ter escolhido ser freira — pareciam afetados ao extremo.

19 julho, 2014

A culpa por você ser pobre é totalmente sua


Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto / Pragmatismo Político

"A frase acima raramente traduz a verdade. Mas é o que muita gente quer que você acredite.

Aí a gente liga a TV de manhã para acompanhar os telejornais por conta do ofício e já se depara com histórias inspiradoras de pessoas que não ficaram esperando o Maná cair do céu e foram à luta. Pois a educação é a saída, o que concordo. E está ao alcance de todos – o que é uma besteira. E as cotas por cor de pele, que foram fundamentais para o personagem retratado na reportagem alcançar seu espaço e mudar sua história, nem bem são citadas.

Pra quê? No Brasil, não temos racismo, não é mesmo? Até porque o negro não existe. É uma construção social…

Quando resgato a história do Joãozinho, os meus leitores doutrinados para acreditar em tudo o que vêem na TV ficam loucos. Joãozinho, aquele self-made man, que é o exemplo de que professores e alunos podem vencer e, com esforço individual, apesar de toda adversidade, “ser alguém na vida”.
(Sobe música triste ao fundo ao som de violinos.)

18 julho, 2014

Reduza as expectativas para ser feliz no amor


, Diário do Centro do Mundo 

"Outro dia eu estava falando sobre o final de um dos meus filmes favoritos, Annie Hall (Noiva Nervosa, Noivo Neurótico; ou vice-versa), de Woody Allen. Poucos filmes, acho, conseguiram captar com tanta riqueza, tanta intensidade a dificuldade de um relacionamento. No final, abandonado por sua mulher (o melhor papel de Diane Keaton), o protagonista (ele, claro: Woody) fala sobre os relacionamentos. E usa uma parábola psicanalítica.

É mais ou menos assim: um homem que acredita botar ovos vai ao psicanalista. Este tenta convencê-lo do absurdo que é pensar que bota ovos. O homem até que concorda, mas diz que não vai mudar. “Por quê?”, pergunta o psicanalista. “Porque não posso viver sem os ovos.” Os ovos, no final do filme, fazem as vezes dos relacionamentos. A gente sabe que são absurdos, mas não consegue viver sem eles.

17 julho, 2014

O que as feministas defendem?

Divisão de tarefas domésticas e quebra de papéis de gênero.  Nationaal Archief/Fickr Creative Commons
"O feminismo é um movimento diverso e em constante construção. Mas mostro aqui as principais ideias que guiam a luta que escolhi. Por Aline Valek, no Escritório Feminista 

Aline Valek, CartaCapital / Escritório Feminista

Aí está uma pergunta em que cabem as mais variadas respostas. Mas a pergunta é importante e muito bem-vinda, especialmente para quem deseja entender melhor do que se trata, afinal, o feminismo. Se você está entre essas pessoas, espero que continue a leitura!

Eu poderia fazer um texto expondo as pautas feministas de um modo geral, mas isso não me cabe; há várias correntes dentro do feminismo, com pensamentos e posicionamentos distintos. Não há “o” feminismo, mas vários feminismos.

Claro, não posso falar por todas as feministas. Somos um movimento diverso e em constante construção. Mas posso, ao menos, falar sobre o feminismo que tento construir diariamente, baseada em tudo que já ouvi, aprendi e continuo aprendendo com tantas feministas que admiro.