18 setembro, 2014

10 bibliotecas públicas inusitadas e belas


Carlos Willian Leite, Revista Bula

 'Durante 18 anos o fotógrafo Robert Dawson percorreu o Estados Unidos fotografando bibliotecas públicas em 47 Estados, do Alasca à Flórida, da Nova Inglaterra a Califórnia as fotografias mostram que, mais do que uma casa de livros e leitura, as bibliotecas públicas funcionam como verdadeiros centros comunitários que oferecem cursos, acesso gratuito à internet, assistência na busca de um emprego ou apenas um lugar quente para se abrigar.

O resultado do projeto é o livro, “Public Library: A Photographic Essay” (Princeton Architectural Press, 29 euros), lançado no mês de maio, que celebra a importância das bibliotecas públicas na vida das pessoas; mas, também traz uma triste constatação: apesar de ainda existirem 17 mil bibliotecas públicas nos Estados Unidos, elas estão em extinção. Eram 40 mil na década de 1980.

O jornal britânico “The Telegraph” fez uma compilação com dez registros primorosos do livro de Robert Dawson.

Allensworth, California

17 setembro, 2014

Simone de Beauvoir e o professor de literatura

Cena do filme Violette, de Martin Provost
"A responsabilidade do autor diante da literatura não se limita a escrever, mas a fazer com que outros escrevam, publiquem, se encontrem 

Matheus Pichonelli, CartaCapital 

No início de 2001, eu era um jovem estudante de cursinho que, como todo jovem incapaz de entrar no vestibular na primeira tacada, andava de cabeça baixa até para ir à cozinha. Crescia e emagrecia em velocidade proporcional ao acúmulo de espinhas que começavam a pipocar no meu rosto. E acabava de descobrir que era míope, o que me obrigava a andar nas ruas de Araraquara com uns óculos de aro fino tão caretas quanto desconfortáveis.

Confuso em um universo que me parecia cada vez menos meu, passei quase um ano trancado em casa. Não saía para festas, não queria ver ninguém – na verdade, não queria ser visto. Minhas distrações eram os livros alugados na biblioteca do cursinho para os finais de semana e uma vontade quase inexplicável de abrir as páginas em branco do Microsoft Word para rabiscar alguns pensamentos – tortos e disformes como seu autor.

16 setembro, 2014

Grito honesto de gratidão e alegria pela vida


André J. Gomes, Revista Bula

"É simples. Nós estamos vivos! Repitam, amantes da maravilhosa e absurda aventura humana. Vivos! Chegamos até aqui e daqui seguiremos em frente. A despeito de tantos contras, a vida está a nosso favor.

Em toda a sua potência, a vida acelera o passo e se multiplica mais rápido que um preconceito, mais forte que a intolerância e a covardia. Exuberante como a beleza de suas infinitas versões.

No ímpeto grandioso das gestações de risco que vingam a qualquer custo, na esperança certa das plantas que rompem o asfalto para ver o céu, na truculência das árvores que desancam a estrutura de aço e pedra das casas, a vida se impõe absoluta e comovente e brutal.

15 setembro, 2014

‘Aprendeu ali que o sexo pode ser sinônimo de desespero’: um conto de amor e desamor de Fabio Hernandez


, DCM

“Você não mudou nada. Sempre com cara de criança. Sempre calado. Pensativo. Às vezes eu tinha que fazer a pergunta e a resposta para que nossas conversas não morressem.”

Fabio arregalou os olhos e encarou Lenita. Fazia cinco anos que não a via, mas parecia que estivera com ela na noite anterior. Fora a roupa, agora muito mais elegante, ela não mudara nada. Os cabelos pretos como uma noite siberiana de inverno continuavam a escorrer pelas suas costas como uma capa de super-herói. Os óculos pretos de aro fino, antes sem marca, agora Armani, ainda lhe davam o ar ingenuamente sexy de professora. Os grossos lábios vermelhos sem batom – batom para quê? Um fêmur deslocado aos 15 anos deixara a perna direita de Lenita ligeiramente menor que a esquerda.

Fabio adorava vê-la caminhar. Ninguém se movia com tanta graça, achava. O maior espetáculo da Terra. Lenita vestia um tailleur rosa de executiva.

Subitamente passou pela cabeça de Fabio a idéia absurda de dizer coisas assim: “Ei, você sabe que eu prefiro você de jeans e camiseta branca, como no passado? Você ainda fica com as bochechas vermelhas depois do amor? Você pode me deixar ver, pela última vez, aquela tatuagem de golfinho na virilha direita?”

14 setembro, 2014

Racismo no futebol: Por que se cala, Pelé?

Pelé e o presidente da Fifa, Sepp Blatter, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, em 2006
"Para o Atleta do Século, ser xingado de 'macaco' não é motivo para interromper uma partida. Assim segue o jogo desde a Escravidão 

Matheus Pichonelli, CartaCapital

“Sabe qual a diferença entre o chuchu e a Xuxa? É que chuchu é comida de preto pobre”. A piada fazia a alegria do público durante as apresentações de um comediante hoje cultuado e que agora vive às turras com a onda do politicamente correto. Foi, talvez, a piada que mais ouvi entre os adultos que frequentavam a minha casa no meio dos anos 1980. Estava em uma fita K7 dos melhores momentos da obra do piadista. Pelé, o “preto rico” implícito na brincadeira, era namorado da apresentadora Xuxa Meneghel, a “comida” da história. A gracinha era repetida por crianças e adultos sem o menor pudor.
Pelé estava aposentado havia cerca de dez anos. Tinha três Copas, dois mundiais interclubes e mais de mil gols na sacola. O currículo não o impedia de ser ridicularizado em apresentações para o grande público ou nas rodas privadas das melhores famílias.

Já adulto, me perguntava se Pelé em algum momento da vida ouviu essa piada. E, se ouviu, como reagiu. Sobretudo me perguntava o que aconteceria quando o Atleta do Século, capaz de parar uma Guerra na África, se revoltasse. Ele chutaria a mesa? Socaria as paredes? Pararia um país no combate permanente contra a sua própria exclusão?

13 setembro, 2014

Quem tem medo de mulher segura?

Não lute contra ela, lute com ela
, DCM

"Reza a lenda que homem tem medo de mulher segura. Que corre dez léguas quando vê uma moça que racha a conta do restaurante, sai sozinha sem precisar de guarda-costas, dorme o sono dos justos mesmo que não haja uma conchinha aconchegante e se equilibra no salto agulha sem precisar de uma mão firme que a auxilie.

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Desconfio – apenas desconfio, por que estou longe de sabê-lo de fato – que os únicos homens que perpetuam este discurso são aqueles que não compreendem o próprio potencial (ou, eventualmente, não o possuem, mesmo).

Um grande homem não se sente atraído pela mulher que se contenta em estar “por trás” dele. Ele compreende que grandes mulheres caminham ao lado. Um homem de verdade não se importa com o fato de sua mulher ganhar mais – porque ele compreende uma verdade tão simples quanto ininteligível para alguns: relacionamentos não são olimpíadas.

12 setembro, 2014

Nós e nosso eterno delírio da perfeição

Ilustração: Mary Jane Ansell
André J. Gomes,Revista Bula  

'Ela veio de longe. Chegou caminhando firme, segura, decidida. Trazia em sua bagagem os mistérios do céu e da terra, os códigos secretos, os novos mandamentos, as fórmulas dos alquimistas reveladas. E os entregaria à primeira pessoa que se mostrasse capaz de pequenos gestos de grandeza, demonstrações simples de cuidado com o outro, meras amostras de humanidade e ternura.

Era um anjo em forma de moça, enviado das altas esferas ao seio do nosso convívio terreno. Sua missão era muito simples. Polvilhar de poesia divina o nosso bolo humano crescido nas obrigações diárias, confeitado sem grandes cuidados por mãos grossas de pressa e desilusão, como em velhas e empoeiradas padarias de rodoviária.

Andando no contrafluxo de uma larga e movimentada calçada, ela desviava aqui e ali de apressados pedestres, enquanto observava a correria competitiva dos carros nas ruas, as ultrapassagens raivosas, as buzinas ofensivas, os gestos obscenos, as guimbas de cigarro e garrafas de plástico vazias que os motoristas lançavam fora pela janela sem tirar os olhos do tráfego, os avanços sob o sinal vermelho e outras desobediências públicas.

11 setembro, 2014

O novo Twitter e as notícias que não vamos ler

Balde de gelo: na rede de Mark Zuckerberg, banho de celebridades foram mais noticiadas que protestos em Ferguson
"Quando redes sociais se tornam o principal meio divulgador de notícias, critérios editoriais dão lugar a algoritmos que decidem o que você lê e não lê, e baldes de gelo tomam o lugar do jornalismo 

Clarice Cardoso, CartaCapital

Uma mudança no modo como o Twitter apresenta os textos nele publicados pode transformar o serviço em algo totalmente diferente do que estamos acostumados. Em vez de trazer uma timeline em ordem cronológica invertida, a rede social pensa em criar formas de destacar certos conteúdos a partir de um algoritmo similar ao usado pelo Facebook. Não se trata apenas de um layout diferente ou de novas formas de interação: trata-se de selecionar aquilo que você vê -- e o que não vê. 

Se isso afeta o modo como você interage com seus amigos, há um outro efeito colateral que é preciso ser debatido e ponderado: o acesso à informação. Dado o papel crescente que têm assumido como difusores de notícias, os algoritmos usados pelas redes sociais para destacar o que é “relevante” para você podem substituir os critérios editoriais na divulgação de notícias. E isso não é exatamente bom.

09 setembro, 2014

Nossa estranha e dolorida dificuldade para o perdão


, Revista Bula

"É noite alta e eu ainda não preguei os olhos. Não vai. O sono não engata. Amanhã cedo tem trabalho que segue até tarde, como todos os outros dias da vida. Eu preciso dormir, mas é impossível e eu sei por quê. É que o meu coração está pesado e barulhento.

Agora há pouco, meu filho de sete anos me fez algo que eu entendi como incabível. Ele me disse “cale a boca” num instante de irritação infantil, egoísta e imaturo como geralmente são as crianças. Eu dei-lhe uma bronca daquelas, gritada, irrefletida, e ele me pediu desculpas, como em geral fazem os adultos de boa vontade. Mas eu não consegui perdoá-lo ali, na hora. Nem ao meu filho, a quem eu disse “não”, nem a mim mesmo eu fui capaz de oferecer um simples e providencial perdão. Estava encerrado o nosso fim de semana feliz.

No tempo combinado, levei-o de volta à casa da mãe dele sem olhar-lhe nos olhos, sem beijo e nem abraço. Sem o “eu te amo”, o “tchau, até amanhã, meu filho”, de sempre. Do jeito mais infantil, egoísta e imaturo possível para um homem de quarenta anos.

08 setembro, 2014

Se um dia eu morrer, me enterrem com aquele terno de grife que o Dalai Lama me deu


, Revista Bula

"Coincidências acontecem o tempo todo. Por exemplo: hoje, eu não quero escrever; hoje, vocês não querem ler. Pronto. Estamos empatados. Viram? Simples assim. Acontece. Por sinal, as coincidências sucedem de tal forma que muita gente debita os ocorreres do acaso a uma espécie de predileção divina, como se os deuses estivessem se divertindo ao nos ferrarem ou, ao contrário, como se eles realmente se interessassem pelos nossos ais. Ora, haja paciência e carneiros no céu! Aquilo ali em cima é apenas uma nuvem em movimento, seus tolos! Está comprovado: os raios e os IDH pífios (Índices de Desenvolvimento Humano) podem cair, sim, nos mesmos lugares. Ou seja, a eletricidade, a estatística, o espiritismo e a pobreza de espírito explicam um quase tudo nessa vida.

07 setembro, 2014

Marina Silva e a ética do coitadismo



"No pacote de mistificações de Marina Silva, inclui-se o fenômeno do coitadismo. Marina é uma injustiçada eterna.

Quando chamada a responder pelo que disse em 2008 e desdisse em 2014, é perseguição. Quando lhe são cobradas explicações sobre o avião de Campos ou as palestras, estão “fazendo CPIs paralelas, informais”.

Não é fácil ter a vida devassada, é evidente, mas é inevitável para qualquer candidato, especialmente os postulantes à presidência.

Numa entrevista à CBN, Marina reclamou que a questão das palestras era um “factoide” — segundo a Folha, entre março de 2011 e junho de 2014 ela recebeu R$ 1,6 milhão falando para empresas cujos nomes, aliás, não foram revelados.