Nuvem carregada

“A mim, ninguém oferecia um gole, ao velho que já passou do tempo. Mas eu não sentia. Minha boca, enrijecida, já se acostumara à posição de paralisia, lábios e gengivas endurecidas sem ambição alguma de falar

Era um sonho. E nele eu era um primitivo. Velho, encarquilhado, vestido em trapos brancos. Porém ciente de uma sabedoria que resulta do tempo impregnado nos ossos. Nessas condições, sentado diante de um casebre de terra, sobre o pó fino e estéril de minha terra, em silêncio eu esperava que chegasse a nuvem carregada. Mas a nuvem carregada não vinha nunca.

Era um sonho em que eu não agia. Só fazia aguardar, na mais manifesta aplicação da paciência dos sábios. Sem o menor deslocamento da coluna, me bastava em meditar e fixar os olhos no entorno. No que visse, esperava encontrar indicações de quando viria a nuvem e o que a traria. Pensava poder identificar os sinais que os deuses enviavam, legíveis apenas aos olhos de quem viveu muito e já viu uma sucessão interminável desses indícios.

Então eu buscava prever a chuva pelo balançar das folhas pálidas, resistentes vegetais de paciência tão notável quanto a minha. Acompanhava os movimentos circulares das crianças que brincavam, seminuas e barrigudas, a simular uma disputa qualquer. Na animação dos movimentos intempestivos, os passos erguiam a poeira do chão, mas o desenho que se formava dizia apenas do tempo seco, do campo estéril, dos leitos rachados onde deveriam passar rios.”
Diego Viana, LMD
Enredo completo, ::Aqui::

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1 comentários:

Diego Viana disse...

Pena que o LMD cancelou a sessão palavra...