O passado dói

“O passado”, de Alan Pauls, é uma viagem, uma vertigem cortazariana ao fundo do coração de um homem dilacerado, feito em pedacinhos como os bilhetes e papelotes que consome sem nem mesmo saber ao certo por quê

Hell hath no fury like a woman scorned. A frase, que poderíamos traduzir como “nem o inferno tem mais fúria que uma mulher desprezada”, é muitas vezes atribuída a William Shakespeare, mas na verdade é de autoria de outro dramaturgo inglês, William Congreve, que viveu entre os séculos dezessete e dezoito, em sua peça The Mourning Bride.

Mas, às vezes, a tragédia mora nos pequenos detalhes. Como bilhetes, pedacinhos de papel minúsculos em que se escrevem mensagens cotidianas, tudo aquilo que o amor não consegue dizer, como diz Sofia, uma das protagonistas de O passado, de Alan Pauls (Editora Cosac Naify).

Esse romance argentino conta a história da separação de Rímini e Sofía, depois de doze anos de um casamento feliz mas conturbado (e qual casamento não é assim?), e da vida depois do fim do amor. Ou não depois do fim do amor, mas da relação.

E mesmo isso é intrincado e confuso na cabeça de Rímini, que se pega ora exasperado, ora apaixonado pela esposa com quem o convívio se fazia tanto no nível do corpo quanto no nível do logos, da palavra, mais precisamente através do papel como interface entre os dois amantes tão complicados.
Fábio Fernandes, LMD
Artigo Completo, ::Aqui::

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