Rousseau - abismo entre o céu e o inferno

Fernando Rego (In memoriam), Terra Magazine

Escrever confissões é separar vidas. De um lado, o confessando, e do outro, o confessor, existências que discrepam. Mas, em Rousseau, a escrita confessional é, ao mesmo tempo, uma tentativa de aproximação e ruptura com o outro, e um exercício retórico através do qual dirige-se ao leitor ideal, Deus. Escrever confissões é tarefa ingrata porque é necessário ao escritor saber dosar o que pode ser dito com o que deve omitir, a costura invisível do texto.

Fazendo uso desses artifícios, Rousseau busca despertar o leitor e atraí-lo para o centro de sua ardilosa teia onde habita o seu eu:

- Somente eu conheço meu coração e conheço os homens. Não sou da mesma massa daquelas com que lidei, ouso crer que não sou feito como os outros. Mesmo que não tenha maior mérito, pelo menos sou diferente. Se a natureza fez bem ou mal quando quebrou a forma em que me moldou, é o que poderão julgar somente depois que me tiverem lido.

Acreditando e alardeando seu autoconhecimento, Rousseau exige uma leitura positiva de sua obra, já que ele sofreu pela verdade e a ela dedicou sua vida.

O lamento de Jean-Jacques Rousseau é a forma de mostrar a tranquilidade de um mortal infeliz e o fim de uma existência pessoal que tornou impossível com a de Deus. Jean Starobinski diz com propriedade: "Rousseau enterneceu-se ao som do próprio lamento". É com ardil e dramaticidade que Jean-Jacques aproxima-se do leitor: "Como seria doce viver entre nós, se a atitude exterior fosse sempre a imagem das disposições do coração".
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