A arte de se apaixonar por São Paulo

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

“Amores tardios podem ser não tão passionais, mas isso não faz deles algo menos intenso. Goethe, por exemplo. Já velhinho, dizem, foi para uma estação de águas onde conheceu uma jovenzinha, pela qual seu coração passou a palpitar. Sendo o Goethe afinal o grande Goethe, não fez aquelas besteiras típicas de velho apaixonado, dar jóias, um Fiat Stilo vermelho, apartamento nos Jardins, nada disso. Fez um poema definitivo sobre a dor de cotovelo: "Eu te amo, tu não me amas. Eu SEI, e SINTO, amargamente".

O meu amor tardio por São Paulo chegou só agora, mas nem por isso bate menos forte no peito. Minha amada é enorme e não para de engordar. Quando ando de trem pela margem do rio Pinheiros penso que ela poderia se caprichar mais no desodorante. Fuma, a desgraçada, e nada que não seja óleo diesel com mais de 50 ppm.

Tem uma arquitetura que passou dos belos prédios do século 19 para o ainda belo modernismo do centro e Higienópolis e desandou para essas coisas neoclássicas pra lá de bregas, mediterrâneas que nunca viram o mar, pós-modernas com vidros azul de gosto escandaloso; usa muito alumínio, mas recentemente fez um lift legal quando resolveu se expor ao mundo livre dos out-doors que a cobriam em parte, nos revelando os segredos de uma beldade que passou um tempão por trás de uma burca.

Pra um neo-apaixonado, os seus eventuais defeitos e até mesmo a Cracolândia a fazem ainda mais bela. Bom, talvez a Cracolândia, não. Apaixonado, sim. Neo-bobo, nem tanto.”
Foto: Luiz Henrique Assunção
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