Algumas coisas cretinas

Sírio Possenti, Terra Magazine

“Poucas coisas são mais cretinas do que citar um poema para "provar" a existência de uma regra de gramática. Pior: por que os mesmos sábios nunca citam "pronominais", por exemplo? (Pronominais (Oswald de Andrade): Dê-me um cigarro / Diz a gramática / Do professor e do aluno / E do mulato sabido / Mas o bom negro e o bom branco / Da Nação Brasileira / Dizem todos os dias / Deixa disso camarada / Me dá um cigarro).

Imagino como deve ser chato para um poeta trabalhar duro para escrevinhar seus textos e depois ouvir perguntas irrelevantes sobre eles. Por exemplo, Pessoa (o Caieiro que ele criou) escreveu "Quis que o não conhecêssemos" e "Por isso se nos não mostrou'?". Alguém publica os versos num jornal.

O nobre leitor, em vez tirar do texto algum proveito estético ou admirar a construção da frase que lhe parece inusitada ou tentar entender se a ordem das palavras tem alguma coisa a ver com o ritmo do verso em pronúncia lusitana ou com efeitos de arcaísmo, em vez de todas essas alternativas razoáveis, em vez de tentar descobrir sozinho, consultando um livro (já que a questão parece lhe interessar, deve ter livros que tratam disso) decide perguntar aos sábios o que é isso, que tipo de colocação do "o" e do "se" é essa que ele nunca viu e que estranha, apesar de ou exatamente porque sempre estudou os manuais dos mesmos sábios, se isso pode ou se não pode, se essa ordem está prevista ou não pelos almanaques.

Os sábios respondem - sim, eles respondem, vivem disso, como os que aconselham a fazer aplicações financeiras ou depilação !! - que a construção existe e depois peroram ignorantemente sobre a necessidade de ensinar isso na escola, sem se dar conta (o que revela que são mais pascácios do que sábios) que esse é o único tipo de coisa em que a escola insiste, sem resultado nenhum para o domínio ativo da língua escrita, mas com excelentes efeitos para o bolso deles, dos sábios.”
Foto: reprodução (relógio de Dali)
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