Da tristeza dessa cana não temos sequer lonjura

"Ah! O caminhão. O caminhão que não era uma idéia, não era uma abstração. Era um caminhão determinado. Era uma condução. Uma história social que ia e vinha todos os dias pela BR-381. Só domingo deixava quieto. Mas na segunda lá estava ele indo e vindo

Augusto Juncal, Brasil de Fato

Luzia despertou com medo agulhado na coluna. Dor fina de motivo não adivinhado. Quis livrar-se do medo. Em vão. Era égua desembestada que de nada adiantava a força do braço no cabresto. Um pesar de gravidade tanta, que teve que rolar até a borda da cama, jogar primeiro pernas para fora, puxando coberta que resistia sobre ela, apoiando flanco sobre magro braço, forçando cama, para alçar tronco e levantar. Não levantou ainda. Sentou-se. Ligeiramente curvada, cabeça despencada para a frente, queixo projetando-se sobre o tórax: um contorno no escuro que ainda havia no quarto.

Lá fora madrugada envelhecia lutando para conservar o breu de suas horas escuras. O pesar da sua gravidade foi um sonho que teve. Seus pés tatearam chão em busca das havaianas. Respirou, reuniu forças, levantou. Coxeando, coxeando foi fazer café. Luzia, Luzia, com essa perna coxa que te amaria? Pegou capanga nova que tinha costurado para Isaías. Colocou dentro marmita: batata, macarrão, carne, arroz. Feijão. Fechou bem a capanga. No quarto, Isaías de um só pulo deixou a cama, jogando pernas dentro das calças, enfiando-se dentro da camisa que tava dentro de outra camisa, mangote. Caçou boné pendurado na parede, colocou na cabeça cobrindo pescoço, ombros. Afivelou velcro. Catou caneleira no canto do quarto arriada sobre botina, já tomando das mãos da noite escura do quarto bainha, facão e podão. Podão de amolar facão: 18, 20,18,20, para não perder tempo, 18, 20, 18, 20, menos não pode não, menos que isso é fome.

Na cozinha o cheiro do café fresco abria brecha na pobreza da casa, precária de construção e de outras precariedades. Cheiro bom. Quase um prazer. Luiza deu-lhe uma caneca generosa. Ele colocou-se sob a soleira. Não bebeu ainda. Observou o chumbo do dia amanhecendo. 18, 20, 18, 20 toneladas por dia. Soprou e bebeu.

Eram assim as manhãs madrugadas: silenciosas. Sem bom dia, sem beijo, nenhum afeto. Mas sempre, por aqui e acolá, um olhar de carinho, que meio existia, meio não existia. Mas que no fundo só parecia não existir. Parecia mais de cuidado que de carinho. Isaías e Luzia não se amavam: cuidavam-se. Que na verdade, dá no mesmo. E sobre isso não vale a pena filosofar.

"A luva!" Isaías voltou ao quarto para pegá-la largando a caneca sobre a mesa.

Caneca sobre mesa: luz da cor amarela do plástico da caneca ressaltando das quatro tábuas enegrecidas e carcomidas.”
Crônica Completa, ::Aqui::
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