Era uma vez o conto de fadas

Marcelo Spalding, Digestivo Cultural

“Era uma vez o conto de fadas, textos puros e ingênuos de fundamental importância para a formação dos valores infantis num tempo em que as crianças obedeciam mais, ouviam mais, eram, enfim, mais crianças.

Como é tentador começar o texto assim, mas seria ridículo! Ou, pelo menos, tão ingênuo e superficial quanto a versão que nossa geração ouviu dos contos de fadas. Porque se por um lado é verdade que os contos de fadas leves e bem desenhados da Disney marcaram nossa infância, também é verdade que na sua origem tais contos divertiam homens, mulheres e crianças ao redor de uma fogueira, falando de lobos e princesas, amor e morte. Isso num tempo em que sequer existia infância, e a literatura era transmitida oralmente.

Centenas de anos depois, tais histórias não perderam sua força nem popularidade, e são fonte de inspiração constante para escritores infanto-juvenis (figura inexistente até bem pouco tempo) e até para contistas experimentados, como a escritora Lívia Garcia-Roza. Em Era outra vez (Companhia das Letras, 2009, 88 págs.), seu mais recente livro de contos, Lívia revisita as narrativas infantis a partir de abordagens contemporâneas, atualizando conflitos e personagens num mundo sem tanto espaço para a imaginação ― nem tempo para magias.

A ideia não é original. Nós mesmos, aqui em Porto Alegre, através do Grupo Casa Verde, publicamos uma antologia de contos em 2006 intitulada Era uma vez em Porto Alegre, com proposta bem semelhante. Assim como decerto outros o fizeram em outros lugares. Mas o importante, afinal, não é a originalidade, e sim a abordagem que se faz desse tipo de história. Como sabemos, histórias como Cinderela e Branca de Neve remontam à Idade Média, e talvez ficassem restritas ao folclore europeu não fosse o grande esforço de compilação feito no século XVIII, especialmente pelos Irmãos Grimm. Reunidos em livros, os contos atravessaram o século e chegaram nas mãos de Walt Disney, que aproveitou o núcleo central das narrativas para desenvolver belas histórias de amor ao gosto de meninos e meninas que não passavam frio no inverno nem precisavam trabalhar em campos ou minas.

É esse tipo de história que ficou conhecida como "conto de fadas", ainda que haja mais a presença de animais do que propriamente de fadas, e que hoje repetimos a exaustão para relembrar ou recriar. No caso de Lívia, uma recriação não apenas temática, como também estética.”
Artigo Completo, ::Aqui::

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