Cupido era o nickname dele

Ana Elisa Ribeiro, Digestivo Cultural

“Não tenho a menor dúvida: a internet amplia nossas chances de viver um romance. Também não tenho a menor dúvida de que a internet não pode garantir que a qualidade desse romance seja boa ou má. Outra certeza: as paqueras só começam na internet. De repente, elas saltam para a "vida real" e tornam-se como as outras. E quando são vividas apenas virtualmente, podem ser tão intensas quanto as paqueras de carne e osso, só que com um tico mais de fantasia, por conta da distância física.

Difícil e meio inútil ficar categorizando e prescrevendo coisas sobre o amor na internet. Só quem começa algo assim, mediado por computador ou qualquer outro dispositivo, sabe o que é estar nessa experiência. E isso não é coisa nova. O telefone oferecia possibilidade parecida na forma daqueles serviços tipo "Disque Amizade", que ainda hoje são divulgados na tevê. No entanto, essas coisas via Embratel eram vistas com preconceito e pareciam um tantinho bregas.

Na internet, tudo ficou chique. Conectado em banda larga, o carinha veste um nickname e entra em uma sala de bate-papo. Em meados dos anos 1990, esse chat era, em geral, no UOL. Os assuntos vão e vêm, as pessoas trocam ideias no mesmo horário, se gostam, simpatizam, aparentam afinidades e um dia se encontram.

Bokinha quer falar reservadamente com Gaúcho. Como é que você é? Alto, tipo 1m e oitenta, olhos esverdeados (principalmente no sol), nem gordo nem magro, aloirado (em dias claros). E o que você faz na vida? Estudo Contábeis e moro com meus pais. Dirijo, tá? Bokinha fica feliz. Mas eles moram a 700 km um do outro. Fazer o quê? E ainda assim gastam noites inteiras batendo papo reservadamente.”
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