
José Carlos Ruy, Vermelho.org
Eulálio e sua sonhada Matilde, o casal desencontrado, protagonista das memórias de um centenário, recoloca, em outra circunstância, antagonismo semelhante ao que atormentou a consciência do primeiro Betinho, o de Dom Casmurro (Machado de Assis, de 1899). Um registro mais recente do mesmo drama é o caso de Nina e Valdo, de Crônica da casa assassinada (Lúcio Cardoso, de 1959). São tramas em que uma leitura superficial, e corriqueira, ressalta a traição feminina como tema, sem perceber o que há de mais profundo nelas: o pavor masculino da traição da mulher. O problema, nesta variante de leitura, é masculino e não feminino.
Mas isto é apenas o enredo para expor uma problemática mais complexa: o auge e a decadência de uma mesma oligarquia. Em Machado, ele é exposto com maestria em Dom Casmurro, e faz parte da aguda análise daquela elite que compõe seus romances da maturidade. Em Lúcio Cardoso, o cenário da lancinante decadência é um pequeno município da Serra da Mantiqueira, onde os Menezes tentam manter a mesma ultrapassada hierarquia social herdada dos séculos anteriores e que agora está completamente fora da realidade.
As memórias de Eulálio d´Assumpção - com o "d´" e o "p" nobilitantes no sobrenome - não tem esse sofrimento. É como se fosse o ponto de chegada da trajetória, ladeira abaixo, daquela mesma elite. Seu avô, um figurão do Império, dono de fazendas de cacau na Bahia e de café em São Paulo, estariam à vontade nos romances de Machado de Assis. Eulálio, já sem fortuna, relata - na verdade, delira - suas memórias no leito de um hospital público, às vésperas de completar cem anos. Desfila preconceitos de classe da mesma forma que essas famílias decadentes que fazem o teatro das grandezas sociais das gerações passadas, e agora perdidas.”
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Chico Buarque, “Leite Derramado”
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