Coisas da Política - Amanhecer em El Salvador

Mauro Santayana, JB Online

"Aquele que for derrotado no serviço em favor dos pobres, pelo amor de Cristo, viverá como o grão de trigo que morre. A colheita chega porque o grão morre. Nós sabemos que todo esforço para melhorar a sociedade, sobretudo quando a sociedade é plena de injustiça e pecado, é esforço que Deus abençoa, que Deus quer, que Deus nos determina".

O pregador era o arcebispo de El Salvador, Dom Oscar Arnulfo Romero y Galdamez, que celebrava a missa vespertina na pequena capela do Hospital da Divina Providência, para cancerosos pobres. Em seguida, um disparo atingiu-lhe o coração. O atirador de elite, segundo se soube depois, era Álvaro Saravia, chefe de um dos mais operativos esquadrões da morte que atuavam no país. Um dia antes, em outra missa, o arcebispo se dirigira aos soldados que vigiavam a cerimônia e os exortara a não matar seus irmãos, ordenando-lhes, em nome de Deus, que não obedecessem a seus superiores.

Sete dias mais tarde, durante as cerimônias fúnebres em sua homenagem, mais de 50 mil pessoas, reunidas na praça – outras 7 mil estavam no interior da catedral – foram atacadas com bombas e tiros de metralhadora. Eclodiu a guerra civil, que custou a vida de 200 mil pessoas, e foi financiada pelos Estados Unidos com US$ 1,5 milhão ao dia, durante 12 anos. Um acordo, em 1992, interrompeu os combates, mas manteve a direita no poder, até a última segunda-feira, quando a esquerda, com o jornalista Maurício Funes, assumiu a Presidência do país.

El Salvador é o mais forte símbolo do confronto entre o humanismo cristão e a brutalidade dos opressores nos últimos séculos. Dom Oscar Romero, segundo os seus biógrafos, foi escolhido para a arquidiocese por sua posição conservadora. Mas, nos três anos anteriores, como bispo de Santiago de Maria, uma das regiões mais miseráveis do país, ele foi convertido à Teologia da Libertação. Cavalgando pela região montanhosa, o prelado descobriu que a realidade da opressão era muito mais dura do que imaginava. Crianças que morriam de fome, trabalhadores que tombavam de fadiga na colheita de café, os cortejos fúnebres diários e os cemitérios plenos de pequenas cruzes. Tentou ajudar com os recursos da igreja e suas próprias economias, mas verificou que isso de nada adiantava. Ao assumir a Arquidiocese de El Salvador, em 1977, resumiu, em sua homilia, a experiência com os humilhados e oprimidos.”
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