Moça debaixo da chuva: os ínvios caminhos

Menalton Braff, Revista Bula

"Uma rua tão melancólica e metalúrgica, tão ocupada com o volume de sua produção industrial que, distraída, parecia há muito ter esquecido no abandono a própria aparência: charme nenhum. Uma rua de paredes sujas e de reboco carcomido, no alto das quais, já perto do beiral, apareciam ridiculamente inúteis algumas janelas estreitas, como se Deus e seus anjos precisassem daquilo para espiar o interior dos galpões que se escondiam para além das paredes e onde pessoas sujas de carvão faziam gestos cujos significados não alcançavam.

Eu caminhava apressado e descontente, olhando às vezes para o céu com a sensação de que tinha caído numa armadilha de onde não conseguiria escapar jamais. O céu que me restava era apenas uma estreita faixa cinzenta de nuvens que se moviam sem direção definida, mas de maneira mais ou menos frenética. Só nós dois, o vento e eu, passávamos pela rua àquela hora da tarde. Sobre o vento, sei que é de seu destino às vezes varrer as ruas. Quanto a mim, não consigo me lembrar do que fazia por lá: o lugar parecia não ter afinidade alguma comigo. Lembro-me, entretanto, de que o céu estava escuro e baixo, como a tampa cinza de um alçapão, quando o vento, encanando por aquele desfiladeiro, levantou poeira tamanha que me vi forçado a proteger os olhos com as mãos. Com a poeira, alçou vôo uma folha de jornal cujas manchetes amarfanhadas gritavam que a chuva era iminente e, além de gritarem, embaraçavam-me as pernas que tentavam correr em busca de abrigo.

Os primeiros pingos da chuva eu os ouvi na pureza de sua individualidade: alguns pesados, líquidos e sonorosos, pérolas que se espatifavam ao cair, e caindo levantavam o pó do passeio. Apenas os primeiros, porque em seguida desabou o aguaceiro de pingos homogêneos, massa contínua de sons sem identidade: água jorrada. Não me alcançou, pois começou a cair exatamente na hora em que cheguei à esquina e saltei para dentro do bar, feliz ainda por ter podido escapar.

Depois de tomar o primeiro copo da cerveja que me justificava no interior do bar, voltei à porta para matar um pouco daquele tempo agora inútil, mas também para ver a chuva caindo — aquele modo estrepitoso de cair. Foi então que deslumbrado a vi: colada à parede suja e de reboco carcomido, no outro lado da rua, ela tentava proteger a cabeça com um jornal aberto ao meio, e o peito, com a mão esquerda espalmada. Seu vestido azul, seco ainda, tremulava ao vento sem temer o escândalo de seu gesto nervoso.”
Crônica Completa, ::Aqui::
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