O poeta da Revolução

Érico Nogueira, Terra Magazine

“Há quarenta anos, neste mesmo mês de julho, morria em São Paulo o poeta Guilherme de Almeida.

Tendo participado da Semana de Arte Moderna de 1922, manteve-se, porém, sempre à margem dos holofotes, criando uma poesia cuja dominante, em mais de cinqüenta anos de exercício, esteve sempre no esmero formal. Nas palavras de Manuel Bandeira (Seleta de Prosa, Nova Fronteira, p. 445): "... um habilíssimo artista do verso, que, com mais fundamento ainda do que Bilac, poderia dizer que imita o ourives quando escreve".

Foi o primeiro dos integrantes da Semana a entrar para Academia Brasileira de Letras, já em 1930. Dois anos mais tarde, integraria também a Revolução Constitucionalista - cujo aniversário se celebra precisamente neste nove de julho -, cumprindo em si o ideal heróico do "poeta e soldado", segundo um verso célebre do mesmo Bandeira. Justamente por causa disso, ficou conhecido como "o poeta da Revolução".

Considerando, pois, a atividade poética e o engajamento cívico de Guilherme de Almeida, percebemos uma constante: a opção por uma liberdade responsável amparada nas leis, e o repúdio a todo programa que, poético ou político, redundasse no seqüestro dessa liberdade. É por isso que, em sua poesia, vemos Guilherme incorporar as vanguardas sem nunca abdicar da tradição, motivo pelo qual suas inovações são sempre muito bem fundamentadas, são guiadas sempre por mão de mestre, evitando as leviandades do "novo pelo novo": como se pode ver, entre outros, no magistral A frauta que eu perdi, publicado em 1924.

Na formação de um poeta, há, evidentemente, aquelas leituras decisivas que, sem que o queiramos nem saibamos, acabam determinando o caminho que haveremos de seguir. Tive a sorte de muito cedo, lá pelos quinze ou dezesseis anos de idade, poder ler Messidor, de Guilherme de Almeida, cuja obra completa estava à minha disposição na biblioteca do já falecido Dr. Conrado Stefani, em Bragança Paulista. Junto com seu neto José Lamartine, meu amigo, descobri muito cedo a beleza da forma, que nunca deixa de emocionar pelo rigor, mas, pelo contrário, é somente por meio dele que emociona - o que acabou determinando toda a minha atividade poética posterior.

Celebremos hoje, pois, no aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932, a memória de Guilherme de Almeida, poeta exímio, tradutor de Baudelaire e de Sófocles, e patriota convicto. Salve Guilherme de Almeida.”
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