Tumor e humor

Urariano Mota, direto da Redação

“Deve existir alguma relação entre o abismo e o riso, entre a consciência de uma desgraça e a graça. Há indivíduos tímidos que se descobrem de repente humoristas, porque começam a falar o pensamento que antes calavam, porque descobriram que nada mais tinham a perder. No limite, tornam-se humoristas involuntários, e com surpresa veem que uma pequena observação desperta gargalhadas à sua volta, quando eles próprios estão com os olhos duros de dor.

Um amigo, a quem conheço mais do que gostaria, percebeu isso na semana passada. Submetido a exames médicos de rotina, que na sua idade revelam sempre males de rotina, descobriu que possuía o rim esquerdo muito alterado. O médico urologista ao ver as imagens da ultrassonografia, enrugou a testa:

- O senhor tem uma massa tumoral...

- O senhor quer dizer um tumor?

- Sim... Temos que marcar rápido uma cirurgia.

O mundo então se lhe abriu. Porque, como capítulos de uma novela a que não se pode antecipar o fim, o médico lhe disse que de imediato não podia confirmar se aquela imagem indicava um câncer (“O que ele queria?”, me contou o amigo, “que a imagem do meu rim fosse a de um caranguejo?”), que isto só poderia ser dito quando sofresse uma biópsia. E para a certeza do mal...

- Somente com a cirurgia. Ponha já na sua cabeça, programe-se, diga-se: “eu vou fazer uma cirurgia”. É simples, rápido e eficiente. É só uma laparoscopia.

Ao sair do consultório, renasceu, se assim podemos dizer. Renasceu, porque do câncer lhe nasceu um insuspeitado humor. A começar com a sua mulher, que o esperava na recepção:

- O que o médico achou do exame?, ela lhe perguntou.

- Nada... É só uma laparoscopia.

- O que é isto?

- Uma cirurgia certa para o meu tumor. Aqui, à esquerda.

- Um tumor?!

- Sim, mas o doutor me disse que eu tenho muita sorte. Olhando as coisas pelo lado positivo: eu ainda não estou urinando sangue.

E deixou a mulher em casa e saiu sozinho para encher-se de cervejas, sob a desculpa, não de desespero, mas de que sendo portador de um mal nos rins era necessário que se embriagasse de algo muito diurético.”
Crônica Completa, ::Aqui::
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