A verdadeira dimensão do homem

Felizmente ou infelizmente, considerando algumas variáveis estatísticas, parece que estamos mesmo sós, nessa imensidade assombrosa. Para existir vida é necessário que haja uma conjunção de fatores, da qual a Terra é um exemplo único conhecido

J. C. Guimarães, Revista Bula

Por que Deus — se existe — se ocupa com um ser tão ínfimo na escala universal quanto o homem? A desproporção parece ridicularizar a Bíblia e outros livros sagrados. Faz sentido? Faz, e a resposta não é necessariamente religiosa. É também científica.

A física é a ciência capaz de conferir ao homem sua verdadeira dimensão, na natureza. De acordo com ela, faria sentido um Deus tão grande dedicar seu tempo a uma criatura tão pequena, por duas boas razões. Primeiro, porque nosso tamanho físico não traduz nossa estatura intelectual. Segundo, porque a probabilidade de sermos únicos no Universo é bastante apreciável. As duas questões relativizam, de saída, o que entendemos por grandeza e mediocridade. Está certo que devemos — e a física paradoxalmente reforça essa postura — devemos ser humildes. Se o homem é maior do que parece, sua casa, a Terra, é por outro lado bastante pequena e frágil. Pode acabar num simples e inesperado evento cósmico, como a colisão com um asteróide (infelizmente, não é ficção científica). De forma que não temos nenhuma garantia de futuro.

Feita a advertência, podemos nos reconfortar. O principal desafio da física, hoje, é confirmar a existência de uma partícula conhecida como bóson de Higgs. Para obtê-lo os cientistas construíram o LHC, que é o maior acelerador de partículas do mundo (um corredor circular de 27 quilômetros de extensão, onde prótons se chocarão entre si a uma velocidade próxima à da luz). Mas, o que é o bóson de Higgs? A menor partícula existente, o tijolo com o qual foi erguido todo o resto. Inclusive o homem. Daí que a chamaram, também, de “a partícula de Deus”. Comparado a esse tijolinho — muitíssimo menor que um átomo -, o homem é uma grandeza. Já o é, se comparado à menor estrutura orgânica conhecida, o DNA, que é igual a 2 x 10 elevado à nona potência. O é, também, se comparado aos seres unicelulares, milhares dos quais habitam o nosso organismo, que podemos imaginar como um universo à parte. Faz sentido, também, nos concebermos como um universo à parte.

Graficamente, o desenho de muitas estruturas microscópicas que compõem os nossos órgãos parece ser análogo ao das estruturas macroscópicas que existem no firmamento. A grande “teia cósmica”, que corresponde ao maior aglomerado de galáxias observável, é semelhante por exemplo aos nossos neurônios. Existe, assim, em escalas muito diferentes, certos padrões gráficos que fazem confundir aquilo que somos com aquilo que está acima — muito acima - de nós. É como se nos repetíssemos, em tamanho e complexidade, ao infinito. Deus, quem sabe, seria o limite extremo desse processo. Voltando aqui à primeira questão — a relatividade de nosso tamanho -, pode-se dizer que o que nos faz muito maiores do que o nosso corpo é a capacidade de conceber o Universo. Há formas poéticas e mitológicas de fazê-lo, como a religião. Mas há, também, uma forma verificável, que é a científica. E a física é o caminho, o método, para traçarmos já o seu esboço. Nem mesmo os céticos podem resistir ao encanto dessa capacidade.”
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