Antes de twittar, que tal pensar?

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

“Rimas, como diria Drummond, não são soluções, mas apenas bons títulos, quem sabe? Na outra semana rimei "Record", com "pior" e um tsunami de e-mails se abateu sobre as minhas praias e eu gostei. Daqui pra frente, tudo vai ser diferente, e rimado, vocês vão ver.

E, cá estava eu, na tranqüilidade da Mansão Carneiro da Cunha, rererererelembrando um delicioso conto (acho que) de Tchecov, sobre um marido traído que resolve, naturalmente, em sendo um conto russo do século 19, matar a mulher e seu amante. Ele então vai até uma loja de armas e explica o seu drama para o vendedor, que começa a descrever com muito entusiasmo as virtudes de cada revólver, pistola, bazuca, AR-15 e similares, disponíveis no arsenal da loja. O marido, um sujeito do bem, apenas com a dor da traição ardendo nas têmporas, vai se apavorando mais e mais com as conseqüências do seu ato desejado na teoria, mas inviável na prática. Ao final da conversa, ele compra uma rede de pesca e volta ao mundo.

Penso nisso porque penso nas consequências dos usos do Twitter, recém chegado ao maravilhoso mundo da rede mundial de computadores e já provocando confusão. Na confusão da semana, temos uma redefinição da palavra irrevogável, por conta do Twitter do senador Mercadante, com consequências bastante duras, para quem pensou com o dedo e twittou antes do tempo certo, que deveria ser nunca.

E, pensando com alguma calma, aqui na distância que minha luxuosa laje em Pinheiros me dá em relação ao mundano e efêmero do mundo lá em baixo, acho que o problema é terem inventado um modo fácil demais de materializar os nossos impulsos.

Não era melhor antes, quando a gente brigava com a namorada e resolvia terminar tudo, e aí tinha que escrever uma carta, arrumar envelope, selo, ir até os Correios - para então enfrentar a fila de gente comprando Tele Sena? Por essas horas, nossa raiva já estava derretida há tempos e a gente podia deixar pra lá, jogar a carta no lixo juntamente com nossas piores intenções e pronto, tudo seguia calminho e igual, para o nosso bem. Se o marido do conto de Tchecov tivesse à mão um meio de materializar o seu pior impulso, teríamos uma mulher e seu amante mortos, de susto ou de bala, um marido preso, e, talvez pior, nenhum conto.”
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1 comentários:

Clel Ribeiro disse...

Deveras... O texto reflete a realidade do mundo imediatista e frenético em que vivemos... Até as mais recentes gerações, nossos filhos, sobrinhos ou até amigos já vivem totalmente influenciados pela cultura da compulsão, que sabe-se lá onde vai parar.
Hoje não se termina um namoro por carta, basta uma conversa no celular ou no msn e tudo está resolvido, já que os relacionamentos tbm começam por impulso e em alguns casos, superficiais.
Sinto falta de quando internet era usada só para pesquisas e amizade se fazia pessoalmente! O tempo passa e em menos de um ano, um amigo que foi super parceiro passa a ser mais um em meio aos outros "conhecidos" no orkut.
Que vontade de viver à moda antiga...