65 minutos

Amilcar Bettega, Terra Magazine

“Às 23:07 da noite de 31 de agosto de 2009, num boteco da Av. Independência, em Porto Alegre, um alemão (acho), falando bem o português mas com um forte sotaque, conversa sobre sociologia (ou melhor, monologa, porque o seu companheiro parece não prestar muita atenção no que ele diz).

Um garoto, meio flanelinha meio pivete, entra e vai até o caixa para comprar um cigarro avulso. Está muito sujo e de seu corpo emana um odor, digamos, não muito agradável. Mas também não muito menos agradável do que o odor reinante no boteco. O boteco é um legítimo pé-sujo. Bem sujo, aliás, e fedorento. Ainda assim, depois que o garoto acende o seu cigarro no isqueiro preso a um barbantinho junto ao caixa e vai embora, a mulher do dono do boteco (esse gordo barrigudo que não levanta de sua cadeira à frente do caixa) puxa de dentro do balcão um frasco de Bom Ar e dá uma pulverizada em direção ao local há pouco ocupado pelo garoto. Boa parte do material espargido vai parar na cabeça do marido, que resmunga alguma coisa para a mulher. Ela abana a mão na frente do nariz, faz uma cara de nojo e sacode a cabeça, incentivando, com um olhar que busca, um comentário qualquer dos outros clientes que se empoleiram pelo balcão e em algumas mesas mais distantes.

Um homem muito magro e alto, de pé junto ao balcão e a sua cerveja choca, aceita imediatamente o "convite" para entabular uma conversa e "agradece" falando algo sobre a falta de banho do garoto. Em seguida ele fala do calor (está muito quente e abafado, ele parece sofrer com isso), reclama do clima da cidade, tanto no verão quanto no inverno, e mais ainda do clima de verão durante o inverno, insiste com outras observações meteorológicas misturadas à repetição de clichês à propósito do aquecimento global. Mas acaba se calando ao perceber que já ninguém o escuta, muito menos a mulher do dono do boteco, que se enfiou por uma pequena porta ao lado de um freezer, que comunica, muito provavelmente, com a cozinha do boteco.

Em seguida as atenções se voltam para uma mesa no fundo do bar onde uma menina (meio histérica, já vista um outro dia, num outro bar perto dali, jogando snooker com seus amigos) começa a chorar convulsivamente enquanto um rapaz tenta consolá-la. A mulher do dono do boteco vai até lá e coloca a mão no ombro da menina. Ela parece estar bêbada, ou num estado ainda mais alterado por outras substâncias mais potentes que o álcool. Mas a coisa passa assim como veio. Em seguida ela já está bebendo uma cerveja e rindo do que lhe conta uma outra amiga que acaba de chegar.”
Artigo Completo, ::Aqui::
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