Chute de bico

Igor De Capitani Ojeda, Brasil de Fato

“Qualquer um que já tenha jogado um pouco de futebol de várzea sabe que não se deve, em hipótese alguma, prestar atenção na torcida, principalmente se o jogo é na casa do adversário. Mas foi o que fiz. Tinha plena consciência que, se marcasse mais aquele gol, não sairíamos de lá inteiros. Retardei a cobrança o máximo que pude. Ajeitei a bola no gramado, caminhei três ou quatro passos para trás, conferi a posição da barreira, olhei para o goleiro e, movido por uma força maior, voltei a cabeça para a arquibancada de madeira. Grande erro. Do lado de fora avistei, pronta para invadir o campo, uma multidão ensandecida que, digamos assim, não havia simpatizado muito com os jogadores da equipe visitante, eu em especial.

O ano era 1939. Ou 1940, não me lembro precisamente. Só sei que tinha lá meus 18, 19 anos, cursava economia na FAAP e, junto com mais dois sócios, já era proprietário de um escritório de administração imobiliária na rua Riachuelo, no centro. Mas, acima de tudo, respirava futebol, desde bem antes de aprender a falar “bola”.
Não fazia oito meses, havia sido um dos fundadores do Colombo Futebol Clube. Não, nenhuma referência ao navegador genovês, dito o grande descobridor da América. Longe disso. A homenagem era na verdade ao bar Colombo e a seu dono, um alemãozão daqueles do esteriótipo: alto, gorducho, bonachão, cabelo loiro quase branco, rosto vermelho... chamava-se Gerder, Gerhard, Gert, algo assim. Aparentava ter uns 65 anos, um pouco mais, um pouco menos. Estava no Brasil há quase 20 anos já. Veio com a mulher, Marta, e as duas filhas, logo depois da Primeira Guerra Mundial. Bastante simpático e falador, tinha coração grande, maior que a barriga de chopp que orgulhosamente nutria. Não sei porquê, gostava bastante da gente, e acabou se tornando uma espécie de paizão para todos.

Desde a inauguração, o bar, na esquina da Joaquim Nabuco com a Rangel Pestana, servia de ponto de encontro dos estudantes e jovens do Brás. Era lá que nossa turma se reunia para bater papo, cantar, discutir política, futebol. E lá é que ficou sendo a sede do Colombo Futebol Clube. O Gerhard (ou Gerder, ou Gert, ou outro parecido) foi um dos que mais se entusiasmou. Emocionado com a homenagem, assumiu-se como uma espécie de patrocinador do novo time (do alto de nossa imensa modéstia, o chamávamos de mecenas). Comprava-nos bolas, uniformes e, mais do que justificando a escolha do nome da equipe, até distribuía alguns sanduíches depois dos jogos que disputávamos. “Imagina, é o mínimo que posso fazer”, dizia, com aquele sotaque carregado, sempre que esboçávamos - sem muito esforço, é verdade - não aceitar a comida de graça.

Sendo a sede do Colombo Futebol Clube um bar, a palavra “clube” no nome era apenas uma maneira de dizer. Proposital, claro. Dava um ar de equipe profissional, para rivalizar com um Palestra, um Corinthians. Mas não éramos um clube, e muito menos tínhamos campo próprio, diferentemente de grande parte dos times de várzea de São Paulo. Treinávamos quando e onde dava. Um terreno baldio, um terrão qualquer, um campo de alguma escola, nas ruas, com os sapatos fazendo as vezes das metas... A grande desvantagem é que, sempre que marcávamos alguma partida, tínhamos que jogar na casa do adversário.”
Crônica Completa, ::Aqui::
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