Meu pai versus ACM

Paquito, Terra Magazine

“Salinas da Margarida é um pequeno município do litoral baiano. Fica perto da Ilha de Itaparica, mas não faz parte dela. No entanto, pra se chegar lá em menos tempo, vindo de Salvador, tem de se tomar o ferry-boat para a ilha, e da ilha atravessa-se a Ponte do Funil, de onde se pega a estrada para Salinas. Ou então, pega-se uma lancha no Porto de Salvador, e se vai pelo mar numa viagem que dura duas horas.

Há trinta anos, aproximadamente, não existia estrada para Salinas. O que havia era um caminho cheio de pântanos de água salgada onde os carros invariavelmente atolavam. A viagem por terra parecia uma prova de rallye, com os piores desconfortos a que se tem direito.

Há trinta anos meu pai, Permínio Ferreira, até então proprietário de uma loja de tecidos, decidiu-se, seguindo a máxima de Bilac - "ama com fé e orgulho a terra em que nasceste" - pela carreira política para fazer algo por sua terra, Salinas. Candidatou-se a prefeito e venceu.

E era tão louco por sua cidade e pelo Brasil que dizia que, na final entre o Brasil e Uruguai da Copa de 50, "se patriotas fóssemos, os uruguaios não teriam saído vivos do campo". Após ouvir estas palavras, eu imaginava, horrorizado, o Maracanã cheio de corpos insepultos como em finais de batalha dos filmes de guerra.

Hoje eu sei que o dito de meu pai era apenas uma bravata pra demonstrar o seu amor à pátria. Ele dizia "senhorinha" em vez de "senhorita", um termo emprestado do espanhol. Tinha orgulho da nossa herança portuguesa. Sua terra natal, portanto, era seu eixo, apesar de ter morado no Rio, em Jequié, depois de ter se casado com minha mãe, e, por fim, em Salvador. Quando prefeito, ele passava a maior parte do tempo, lógico, em Salinas, onde tínhamos uma casa. Confesso que achava aqueles veraneios longos e chatos, e aquela cidade um deserto de diversões, com praias onde não se podia tomar banho de mar porque eram repletas de manguezais e muita, muita lama.

Mas o fato é que meu pai, que apoiou o golpe de 1964 - para ele, "a revolução" -, era da ARENA, partido do governo. Em Salinas, a oposição era tão pró-golpe que não existia MDB, mas ARENA 1 e ARENA 2. Eu, que tinha uns catorze anos, achava a política do lugar comezinha e todos os políticos caretas e corruptos.
Foto: Fabio Pozzebom, Agência Brasil
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3 comentários:

Zeza Estrela disse...

Não entendi, onde o ACM entra na parada? :o

Neto disse...

Acabou? Se não acabou, quando virá a segunda parte?

Anônimo disse...

É, com a volta do poderio da Igreja católica, (Ver ensino religioso e Estado pseudo-laico) agora só nos resta retornar à opressão militar de 40 anos atrás. A humanidade brasileira avança com passos contrários, saudosos do domínio militar, como bons cordeiros, corpos dóceis politicamente e úteis econômicamente que somos!!