Romances do Futuro e Homens do Passado

Guilherme Diniz, o rinoceronte voador

"Romances distópicos deixam-me enfastiadiço. Não entendo ao certo a razão de se imaginar o futuro como algo precário, turvo, nebuloso e pessimista. Sempre nutri preferência pelas utopias; se for para haver barbarização de uma ou outra proposta, qual a razão de se preferir a privação e miséria em detrimento do gozo e da ventura? Mas a opinião em favor dessa perspectiva é minoritária. Se juntarmos os nomes de autores utópicos provavelmente não encontraremos mais que uma dezena.

Por outro lado, se reunirmos escritores cujas obras pontuaram-se pelo caráter marcadamente derrotista, seríamos bem capazes de preencher tranquilamente uma folha de papel. Inevitavelmente teríamos que citar nomes como os de George Orwell (1984), Aldous Huxley (Admiravel Mundo Novo), H. G. Wells (The Sleeper Awakes), Mary Shelley (The Last Man), Karel Čapek (R.U.R.), Sinclair Lewis (It Can't Happen Here), Yevgeny Zamyatin (We), Karin Boye (Kalocain), Anthony Burgess (A Clockwork Orange). E o motivo para isso, creio, parece concentrar-se numa palavra a faltar na visão pessimista: obstinação.

Sobre ela, Hermann Hesse (vide Sobre a Guerra e a Paz) nos contava ser a única virtude que verdadeiramente corresponde à natureza dos sonhos e da liberdade. As outras virtudes, para ele, caminham sempre para a obediência daquilo que homens de outros tempos nos prescreveram como certo e digno de respeito. A obstinação também é uma virtude, mas a ela se vincula outra espécie dever, significadamente mais sagrado: seguir sua própria lei, “o sentido de si mesmo”.

Se escolhermos três autores cujas obras se pontuaram pelo motivo da tenacidade, veremos que o destino a ser alcançado não poderia ser outro que não o de imaginar o impossível: William Morris, Henry David Thoreau e Percy Shelley. O primeiro, em Notícias de Lugar Nenhum, imaginou no ano de 2112 uma Inglaterra povoada por homens que fossem capazes de desenvolver atividades laborais e artísticas realmente dignas para a formação humana, onde tudo aquilo que fosse desnecessário para alcançar esse objetivo estaria de todo abolido e o tédio do trabalho e os seus inconvenientes estariam completamente proscritos.
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