Indignação, de Philip Roth

Rafael Rodrigues, Digestivo Cultural

“Philip Roth, considerado por muitos como o maior escritor norte-americano vivo, tem sido, ao longo de sua carreira, agraciado com os mais diversos prêmios literários ― dentre eles o Pulitzer, conquistado em 1998 pelo romance Pastoral Americana. Há anos seu nome é um dos mais especulados para vencer o Nobel de Literatura. Além disso, é o único autor americano que, em vida, teve sua obra publicada pela prestigiada editora (que se diz sem fins lucrativos) Library of America.

Com um currículo desses, Philip Roth poderia simplesmente ter parado de escrever. Ou fazer como a maioria dos escritores consagrados, que, a partir de determinado ponto de suas carreiras, parecem ter resolvido publicar trabalhos no máximo razoáveis, que em nada condizem com suas melhores obras, muitas vezes fazendo arremedos de si mesmos ― como vem acontecendo com Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, por exemplo, e, dizem as línguas ferinas, com Gabriel García Márquez e João Ubaldo Ribeiro.

Mas não. Roth vem, do alto de seus 76 anos, publicando livros que, se não são obras-primas, ao menos correspondem às expectativas dos leitores e dos críticos. Homem Comum, por exemplo, penúltimo livro do autor publicado no Brasil, é uma obra tão impactante que ecoa na mente do leitor durante meses ― e isso pode durar anos. Nele, Philip Roth fez uso de toda a simplicidade de que foi capaz para contar a história de um homem comum, um homem irrelevante para o resto do mundo ― como é a maioria dos homens. Seu talento para executar esta novela, uma obra valorosa, foi interpretado por mim mesmo, anos atrás, como uma tentativa não tão bem-sucedida de escrever uma obra-prima. Felizmente, tenho agora a possibilidade de reconhecer minha avaliação falha e de não cometer novamente o mesmo erro com Indignação (Companhia das Letras, 2009, 176 págs.), mais recente romance de Roth publicado aqui.

A narrativa simples, linear, tradicional ― ou seja, sem floreios ou transgressões narrativas ―, além do o estilo curto e grosso de Homem comum estão presentes no novo romance. E, da mesma forma que a obra anterior não arrebata o leitor logo nas primeiras páginas, Indignação faz isso aos poucos, de maneira gradual, precisa e poderosa. Mas se em Homem Comum a velhice era motivo de ojeriza, no novo livro a juventude é que é a vilã. Marcus Messner, um jovem de dezoito anos, é o protagonista e narrador do livro. Nascido em Newark, mesma cidade onde nasceu Philip Roth, Marcus é filho de um açougueiro kosher ― isso significa que a carne vendida por ele obedece a lei judaica; vale citar a explicação de Marcus sobre a diferença entre uma carne kosher e uma carne "não kosher": " (...) para tornar o animal kosher, era necessário retirar todo o sangue. Num abatedouro não kosher, podem dar um tiro no animal, podem dar uma pancada para deixá-lo inconsciente, podem matá-lo da forma que quiserem. Mas, para ser kosher, o animal tem de morrer devido à perda de sangue.". Este trecho, mais próximo do fim do livro, dá uma maior noção a respeito da personalidade do pai de Marcus, porque mesmo depois de seu negócio perder clientes para um supermercado recém-inaugurado que vendia carne mais barata, mesmo ela não sendo kosher, ele manteve a tradição judaica, embora isso representasse uma considerável queda no rendimento do negócio.

Narrando a história de sua vida, Marcus revela também um pouco da história da família Messner e da situação política de seu tempo ― a ação do romance acontece durante o final do ano de 1950 e vai até o início de 1952, ou seja, um pouco depois do início e pouco antes do fim da Guerra da Coréia, que termina em 1953. Logo no início do livro ficamos sabendo que dois primos de Marcus morreram em combate durante a Segunda Guerra Mundial. Com a Guerra da Coréia acontecendo, Marcus tem medo de ser ele próprio recrutado e morrer como os primos. Mas medo maior tem seu pai, que, desesperado, tentando evitar que o filho tenha o mesmo destino de seus dois sobrinhos, faz justamente o contrário e o empurra, involuntariamente, para as frentes de batalha.

Durante as primeiras páginas de Indignação, tem-se a impressão de que este é um livro, acima de tudo, sobre a relação entre pai e filho ― tanto que a mãe de Marcus tem uma participação mínima na história, se comparada com a do seu pai. O tema é, sem dúvida, bastante presente, mas não chega a ser o principal. O cerne de Indignação é, na verdade, a inconsequência juvenil, a sensação que os jovens têm de que podem abraçar o mundo, a arrogância que os faz pensar que sempre têm razão e que seus pais, nascidos em "outro tempo", não sabem mais de nada, afinal, o mundo mudou, o mundo sempre muda, a toda hora.”
Artigo Completo, ::Aqui::

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