
"Ela estava ali parada, com seus dez ou onze anos, já mergulhada no tédio de uma adolescência que não iria tardar. Mascava alguma coisa, bala ou chiclete, e sua displicência ainda não era intencional, nem mesmo consciente. Devia ter já feito o tema de casa, não precisava pensar mais naquilo. Estava livre para não fazer nada e se deixar ficar por ali, enquanto o pai consertava a bicicleta.
Ele a pusera com as rodas para cima, o guidom e o banco no chão, e, de joelhos, girava os pedais como se fosse uma manivela, verificando o ajuste da correia. Levantou, desvirou a bicicleta deixando-a apoiada no pezinho metálico e afastou-se um pouco para observá-la. Parecia satisfeito com o trabalho.
Ela podia experimentar, ele disse. Mas a sua frase ficou por ali, perdida, incapaz de penetrar a massa de devaneios que envolvia a menina. Ela continuava a mascar sua bala ou chiclete sem muita vontade. Difícil dizer se pensava em alguma coisa. Estava ali, e isso era tudo. Podia deixar o tempo passar assim, aliás não sabia fazer de outro modo. A tarde era morna, havia alguns pássaros por ali nas árvores. Ela ouvia-lhes o canto, sem verdadeiramente ouvir. Era mais um som que se juntava àquela nuvem de ausência que a suspendia num vazio que, algum tempo depois, começaria a pesar de fato. Por enquanto não, por enquanto ela mal-e-mal conseguiria, se tentasse, se dar conta das suas sensações, muito menos nomeá-las. Uma falta de vontade das coisas talvez fosse o mais próximo que poderia chegar. Esperava algo, embora não soubesse o que era e nem mesmo que esperava.”
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