Vertigem

Amilcar Bettega, Terra Magazine

"Ela estava ali parada, com seus dez ou onze anos, já mergulhada no tédio de uma adolescência que não iria tardar. Mascava alguma coisa, bala ou chiclete, e sua displicência ainda não era intencional, nem mesmo consciente. Devia ter já feito o tema de casa, não precisava pensar mais naquilo. Estava livre para não fazer nada e se deixar ficar por ali, enquanto o pai consertava a bicicleta.

Ele a pusera com as rodas para cima, o guidom e o banco no chão, e, de joelhos, girava os pedais como se fosse uma manivela, verificando o ajuste da correia. Levantou, desvirou a bicicleta deixando-a apoiada no pezinho metálico e afastou-se um pouco para observá-la. Parecia satisfeito com o trabalho.

Ela podia experimentar, ele disse. Mas a sua frase ficou por ali, perdida, incapaz de penetrar a massa de devaneios que envolvia a menina. Ela continuava a mascar sua bala ou chiclete sem muita vontade. Difícil dizer se pensava em alguma coisa. Estava ali, e isso era tudo. Podia deixar o tempo passar assim, aliás não sabia fazer de outro modo. A tarde era morna, havia alguns pássaros por ali nas árvores. Ela ouvia-lhes o canto, sem verdadeiramente ouvir. Era mais um som que se juntava àquela nuvem de ausência que a suspendia num vazio que, algum tempo depois, começaria a pesar de fato. Por enquanto não, por enquanto ela mal-e-mal conseguiria, se tentasse, se dar conta das suas sensações, muito menos nomeá-las. Uma falta de vontade das coisas talvez fosse o mais próximo que poderia chegar. Esperava algo, embora não soubesse o que era e nem mesmo que esperava.”
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