Mulher & memória

"Tinha apenas um casaco e um par de sapatos de cor indefinida mas, ao sair, os cabelos ruivos adejavam no espelho do porta-chapéus, deixando um rastro de fagulhas elétricas, um perfume de madressilvas. E tinha dezoito anos"

Márcia Denser, Congresso em Foco

Comemora-se mais uma vez "O Dia Internacional da Mulher", e este ano eu gostaria de prestar tributo àquela que, para mim, representa o eterno feminino e que está às vésperas de partir: minha mãe. O conto A irresistível Vivien O, dedicado a ela, numa leitura mais ampla, propõe um resgate do feminino e sua memória cujo cenário é São Paulo anos 50.

De origem obscura e controversa, mistura de celtas, italianos e irlandeses, filha de Rosa e Dioniso Trask, um casal de fazendeiros do interior do estado cuja numerosa e estrídula família – seis meninas e três varões – emigrou para a capital durante a segunda guerra, Vivien constituía uma espécie de síntese de todo o capital estético das divas de Hollywood dos anos 50, mas como quem saca sem fundos. Quem tentasse analisá-la traço por traço, perceberia porque: eram todos irregulares. Um exame decepcionante e tão inútil quanto seguir pistas falsas. Vistos em conjunto produziam a tal síntese – a desconcertante alquimia da beleza. Conseguia parecer-se com Vivien Leigh e Maureen O’Hara e ainda reservar personalidade bastante para si própria.

De forma que Vivien deveria ter sido catastroficamente bela porque única e, consequentemente, irrepetível. Mas isto não deve ter ocorrido a Álvaro quando a quis sua mulher e mãe dos seus filhos.

Vejamos: os negros olhos circunflexos abrigavam um demônio fixo de rocha e pássaro, a boca, fina como um risco, subitamente se alastrava nem sorriso esfuziante inacessível marcado por covinhas: a beleza não admite pontos finais. Os cabelos ruivos ocultavam o crânio irregular onde o nariz despontava atrevido, Rita Haywoorth com pudor, sem as luvas negras ou o decote expectorante, mas a sugestão velada de tudo isso. Sutil desequilíbrio de luz e sombra, fixidez e instabilidade, estrela de uma constelação se movendo para dentro de um universo pessoal que aguardava em suspenso a vinda de Tyrone Power que a levaria para um outro céu de néon e cetim cor-de-rosa, essa garota tão tola, tão simplória, tão Cinderela montada no leão da Metro.

"Depois do banho ela imitava a Rita Haywoorth diante da penteadeira, atirando para trás os cabelos vermelhos", diz Júlia.

"Um negócio bem repugnante. Parecia borsh!", Amanda faz uma careta.

"Nunca haverá mulher como Gilda" dizia Vivien.

"Nunca haveria mulher como Vivien, queria dizer", diz Júlia.

Naturalmente, eu podia mencionar a pele salpicada de sardas de gata irlandesa, os tornozelos grossos, a ressurreição lenta pela manhã e apenas um curso primário, detalhes que a tornavam ainda mais bela, porque as mulheres verdadeiramente belas são as de carne e osso, deste lado da realidade, aquém do sonho, da foto na parede da juventude, das promessas do celulóide e ao alcance dos homens, do amor, de Álvaro, especialmente.”
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