Oscar Wilde, dândi imortal

J.C. Ismael, Digestivo Cultural

"E lágrimas desconhecidas encherão para ele/ a urna da Compaixão, há muito trincada./ Pois quem o pranteia são homens proscritos/ e esses choram sempre." (Epitáfio sobre o túmulo de Oscar Wilde, transcrição dos versos finais do capítulo IV da Balada do cárcere de Reading)

No dia 30 de novembro fará 110 anos que Oscar (Fingall O'Flahertie Wills) Wilde morreu. Seus 46 anos aparentavam muito mais devido à devastação física, causada pela meningite, e sequelas de uma infecção mal curada. Somadas à solidão, depressão e pobreza, borraram os vestígios do sofisticado dublinense que por quase duas décadas usara a aristocracia vitoriana como pretexto para criticar a superficialidade das relações humanas. Na (re)leitura das suas obras é fácil detectar que seus poemas de estreia têm a originalidade comprometida por uma adjetivação desnecessária, e que a adoção dócil ao esteticismo decadentista da arte pela arte também contribuiu para torná-lo pouco palatável aos leitores. Mas com seu amadurecimento é impossível negar o encanto das peças epigramáticas e não se comover com as reflexões tecidas no fim da vida sobre o desamparo humano diante da tirania do destino.

Objeto de riso nas escolas que frequenta em Dublin e Oxford, por causa dos trajes exóticos e maneiras afetadas, símbolos de uma rebeldia difusa, Oscar Wilde começa a ganhar notoriedade em 1881, quando seus poemas, publicados esparsamente, são reunidos num livro. No ano seguinte, percorre o Canadá e os Estados Unidos fazendo palestras em universidades. Perguntado pelo funcionário da alfândega de Nova York sobre o que tinha a declarar que levava na bagagem, responde: "Nada, a não ser a minha genialidade". Os aplausos para a peça Vera, então em cartaz naquela cidade, aumentam a curiosidade em ouvir o já lendário frasista, mas a imprensa americana o crucifixa por causa da maneira debochada com que trata assuntos que vão da religião à (in)fidelidade conjugal. Os ataques fazem-no reagir com mais irreverência, o que acaba por desgastá-lo, mesmo porque ficara evidente que a suposta originalidade das suas teorias estéticas havia sido bebida nos textos de Mathew Arnold e Walter Pater. Mesmo assim, ao defender a importância da subjetividade na expressão artística e a liberdade na realização pessoal, dá uma contribuição importante ao romantismo, ao utilizá-lo como instrumento de investigação da realidade.

Execrado pelos progressistas, que exigem o engajamento do artista na luta pelas transformações da sociedade, e pelos conservadores, que o acusam de enaltecer uma forma de arte sem apreço pelas tradições britânicas, extasia-se com essa unanimidade. Em 1884, Constance Mary Lloyd, da burguesia londrina, torna-se sua mulher e lhe dá dois filhos, Cyril e Vyvyan, mas Wilde jamais seria um modelo de patriarca vitoriano. As críticas literárias que publica no Pall Mall Gazette, coloridas com deliciosas ambiguidades, trituram tudo o que não exalte o prazer estético, assunto desenvolvido nos instigantes ensaios publicados em 1891 com o título de Intenções, reflexões sobre arte e cultura que nenhuma pessoa instruída pode desconhecer.”
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