Como morrer bestamente (manual incompleto)

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Pensa numa coisa triste, muito triste. Velório de criança. “Ninguém merece. Jamais presenciei uma situação tão cruel assim na minha vida”. Era o que o povo dizia, com os olhos inchados de tanto chorar. Lágrimas: frutos da saudade, do pavor ou da ignorância? Se é que ela existe, para onde vai a alma, afinal?

Existem poucos provérbios tão óbvios e ridículos quanto “para se morrer, basta estar vivo”. É o que muitas pessoas dizem, abobalhadas, umas para os outras, perante o enigmático fenômeno denominado morte. Elas se solidarizam para aplacar a dor e não perderem a fé. Sempre se corre um risco de desacreditar em Deus...
Porque, ainda que decorridos milênios de peleja no planeta, não nos acostumamos com a morte, o segundo maior mistério a ser desvendado pela humanidade. Como será Deus vem em primeiro lugar. Aliás, Deus, frente às tragédias, talvez se sinta numa situação deveras desconfortável...

Velório é um acontecimento social dos mais interessantes. Presta-se, dentre outras coisas, ao último adeus ao morto, um gesto de solidariedade aos entes queridos, um compromisso incômodo do qual não há como se esquivar. É fundamental preparar o corpo da criatura morta a fim de entregá-la ao pó, antes que deteriore e vaze entre os vivos.

Há assuntos supérfluos e até desrespeitosos nos funerais. Há quem consiga flertar, agendar encontros secretos, ou mesmo arquitetar falcatruas financeiras entre velas e coroas de flores. O odor das rosas, então, mescla-se ao enxofre. Aos que creem no maligno, trata-se de ofício do capeta, uma espécie de deboche, pura diversão defronte à dor dos homens.

A morte, por si só, na maioria das vezes, já representa um episódio demasiadamente ultrajante, repelente, pois desliga do cotidiano um ser ao qual se era afeiçoado. Existem, é claro, as mortes encomendadas, aquelas financiadas pela sociedade (penas capitais), e outras forjadas com muita violência, mas com a anuência do povo (linchamentos justiceiros).”
Artigo Completo, ::Aqui::
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