O comerciante abissínio

Guilherme Montana, Digestivo Cultural

"Ele era um comerciante habilidoso. Sabia, como por um dom clarividente, as ervas para todas as necessidades, os tecidos para todas as indumentárias e acessórios, os animais para todos os trabalhos. Este saber nada tinha de mágico, na verdade. Era a manifestação de uma aguda sensibilidade, tanto de espírito quanto de sentidos.

Um andarilho. Harar, Aden, Tadjoura, Zeila... O deserto. O vazio. As cidades. Os mercados. Visitou cada um deles. Mercados apinhados, com cores e rostos distintos, à algaravia de vários idiomas. Entre essa gente, nosso comerciante andarilho, oferecendo cretone adamascado, merinó azul, flanela vermelha, pérolas Decan & Co.; botões ornamentados, fitas douradas, brillés. Panelas, tesouras, couro de bode. Ouro, almíscar. Seda, crepe, lona, algodão.

Item por item, ele conhecia um por um. Assim como as pessoas. A quem vender, a quem não vender. Por quanto vender: o preço justo para quem compra e lucrativo para ele. E o que e com que fim vender: o cretone adamascado, matéria-prima das maréchates, as mantas que vestem os abissínios; Bloknote, uma marca de blocos de papel, ideal para o alfabeto amárico ― debdabies amara ― por suas linhas estreitas; seda azul da Índia, adequada para confecção dos djanos, outro modelo de manta abassi. Assim por diante. Com precisão cristalina, ele comercializa bens: "Tecido de algodão, de trama cerrada, quente, espesso, com a resistência dos panos leves para vela, cortados no comprimento com faixas vermelhas e azuis de cinco centímetros de largura, separadas entre si por vinte centímetros".

Riqueza, longe disso. Mas, sim, próspero, à sua maneira. Nunca lhe faltou trabalho. Havia tanto o que comerciar, por sinal, que ele se aventurou a vender armas, seduzido pela chance de ganhos astronômicos. Mas a transação deu errado. Esta incursão pelo tráfico de armas, temperada com subornos absurdos e caprichos da realeza etíope, deixou um gosto amargo em sua boca. Voltou então a trabalhar entre aromas, fragrâncias, texturas, metais. Sua vocação.”
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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