Quando se abrem as portas

Elisa Andrade Buzzo, Digestivo Cultural

“Num tempo de se discutir educação, aquilo que merece ser ensinado na escola, o que é o conhecimento e como ele pode ser alcançado, eu admiro estas paredes e estes arcos de inspiração greco-romana, esta austeridade escolástica que se esfacela nas propagandas coloridas dos bebedouros. Inclino-me diante das janelas de madeira sólida, toco o puxador de metal trabalhado e, ao apoiar os cotovelos num ato de contemplação, o viaduto Santa Ifigênia se levanta como uma dobradura de um livro que se abre. Há poucos minutos o atravessava e podia observar outros espectadores posicionados onde estou agora, com o conforto da distância que faz dos rostos uma massa indistinta, sem o desafio do tête-à-tête.

As salas de aula, de leitura e os parlatórios são ocupados pelas obras da exposição Arte e religiosidade. É a primeira vez que espaços do Mosteiro e do Colégio de São Bento recebem uma exposição de arte contemporânea. A arte religiosa, abstrata, longe de ser um contraponto complementa os cômodos sem apelar para o óbvio, no entanto se torna obscura diante dos detalhes arquitetônicos que, estes sim, tomam conta de sua própria dimensão.

Subo as escadas apoiando-me no corrimão de madeira gasto, a padronagem geométria do chão vai se alterando a passos largos. A sala de reuniões, de cuja sacada os papas saúdam o povaréu, está aberta à visitação. Flores e frutas incrustadas no teto dão o tom tropical-abrasileirado da decoração. Há uma mesa grande, canapés e cadeiras de madeira estofadas, um piano antigo recostado na parede. O Martinelli nos espia por detrás dos outros prédios do Largo de São Bento, enquanto o Banespa oscila magestosamente a bandeira do Estado de São Paulo. Dali o centro parece uma criança inofensiva, carinhosa até.

Os corredores claros com pé-direito alto convidam meus sentidos a rememorar quantos sóis como o deste sábado matinal já não bateram contra suas paredes e clarearam a passagem dos estudantes e professores, e agora dos meros mortais há muito alfabetizados. Que sensação incerta, entre o vivido e o não vivido, entre o querido e o querer propicia um ambiente escolar ― mesmo que morto, repleto de visitantes curiosos.”
Foto: Sissy Eiko
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