O fino do sangue-com-açúcar

Livros com vampiros românticos embalam lançamentos

Antonio Luiz M. C. Costa, CartaMaior

Claro que os escritores e as editoras nacionais não iam deixar de tentar tirar proveito da mania das adolescentes por amores proibidos com vampiros românticos, desencadeada pela série de Stephenie Meyer. O perigo era o de a ânsia por não perder a oportunidade de um ganho fácil resultar em produtos de baixa qualidade, imitações apressadas e diluídas de um estilo já duvidoso – reciclagens de cenários e personagens conhecidos, mesmo com outros nomes.

Sem deixar de mirar esse público-alvo na mosca – a capa não deixa ninguém mentir –, a coletânea Meu Amor é um Vampiro, da Editora Draco (R$ 31,90, 160 páginas), organizada por Eric Novello e Janaína Chervezan, superou essa tentação e é capaz de resistir ao teste de uma leitura mais adulta. A maioria dos contos visa leitoras adolescentes sem subestimá-las e nenhum se reduz a mera imitação. Todos usam linguagens simples, muitos deles coloquialmente adolescentes, mas também expressam vontade e dedicação da editora e das autoras (todas mulheres) de dar o melhor de seu talento para apresentar histórias criativas e interessantes, com personalidade própria. São assumidamente sangue-com-açúcar, mas o teor de glicose varia. Alguns deveriam vir com advertência aos diabéticos, mas outros se contêm e permitem sentir melhor a presença de outros temperos.

A primeira noite de neblina, de Adriana Araújo, começa bem. É bem escrito, a linguagem é rica, a protagonista soa inteligente, tem uma voz autêntica e característica. Pena que o encontro vai pouco a pouco se acomodando aos lugares-comuns do romantismo mais desbragado, com direito a um passeio por um reino de contos de fadas ao lado de um príncipe encantado para Bela Adormecida nenhuma botar defeito, um e outro sem os toques originais e pessoais que o início prometia. Um tanto frustrante, também, que a experiência – que culmina na tradicional relação sexual metafórica – não afete em nada a heroína, que retoma seus hábitos como se nada houvesse acontecido.

O presente, de Valéria Hadel, é também ingênuo e irônico, mas mais divertido e, no fim das contas, mais satisfatório. Desta vez, a protagonista é uma vampira de muitos séculos (ela nos diz ter sido modelo da Moça com Brinco de Pérola que Johannes Vermeer pintou em 1665), que convive com bruxos e lobisomens, mas tem uma cabeça de menina vaidosa – com a agravante de ter sua insegurança de adolescente multiplicada pela impossibilidade de se ver ao espelho, como é de praxe entre os vampiros desde Bram Stocker. O conto e sua inesperada resolução giram em torno desse pormenor.”
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