Os Malaquias

Alex Sens Fuziy, Revista Bula

“Para quem conhece Andréa del Fuego, escritora nascida em São Paulo mas quase mineira, com um olho de cada cor e as mãos encharcadas de palavras, sabe de seu trabalho visceral e divergente na literatura contemporânea. Na via principal da escrita há quase sete anos, Andréa se tornou a mãe dos minicontos, começando nessa escrita aparentemente fácil, mas que em poucas linhas, ou numa linha só, revela e esconde, mostra-se rasa no tamanho, mas profunda na possibilidade quase absurda de muitos sentidos. O que sua literatura traz, antes de qualquer coisa, é mais do que o palco à mostra, as cortinas descerradas e os atores curvando-se para a ovação; ela traz o que o espectador de alma observadora consegue absorver do urdimento, das pateras, da ribalta, do proscênio. O conjunto nunca é objetivo, e por isso torna-se mais encantador.

Depois de publicar quatro livros de contos e minicontos, um de crônicas e dois romances, um juvenil e outro infantil, Andréa fugiu dos atalhos e se enredou na trilha tortuosa e às vezes íngreme que pode ser o romance adulto, sempre de maior peso, de tempo mais largo e que pede concentração e foco redobrados. “Os Malaquias” (Língua Geral, 272 páginas) veio como prato de entrada e dependendo de leitura e leitor, pode satisfazer todo o jantar e dispensar o resto, inclusive bebida, garçom e bons modos à mesa onde nossos olhos derramam nos 73 capítulos: curtos como já é marca da escritora, mas longos na representação literária, na simbologia linguistica e acima de tudo na qualidade.

Resgatando seus antepassados e fatos verídicos que foram sendo amassados e ficcionados, “Os Malaquias” conta a história da vida de três irmãos que perdem seus pais para um raio, num lugar chamado Serra Morena e que se mostra cada vez mais enigmático ao longo das páginas. Durante uma tempestade, descrita com a lenidade de um poema, a família Malaquias está deitada, dormindo, quando um raio cai sobre a casa e fulmina o casal que tem seus corações na sístole, instante em que a aorta se fecha, não permitindo o raio passar e aterrar-se. Ao contrário dos pais, os três filhos, deitados juntos numa mesma cama em outro quarto, estão no momento da diástole, permitindo a passagem da descarga e sofrendo assim “queimaduras ínfimas, imperceptíveis”. A partir daí o romance é vertigem e tempo. Cada criança tem seu destino arranjado por Geraldo Passos, dono da Fazenda Rio Claro, na mesma serra, lugar onde se passa boa parte do romance. Nico, o mais velho, fica com ele para ajudar no trabalho rural, ao passo que Antônio e Júlia vão para um lar de irmãs francesas, que cuidam de crianças órfãs, educando-as e alimentando-as. Nico cresce longe dos irmãos, conhece o amor, deixa o espírito de Serra Morena o tomar e guiar seu caminho, ele próprio vertiginoso como o romance se apresenta do meio para o fim. Júlia, a mais nova, é adotada por uma mulher rica, enquanto Antônio, o irmão do meio, continua no lar das irmãs, crescendo na idade, mas não na altura, por ser finalmente diagnosticado com nanismo.”
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