O império da ficção

Mauro Santayana, JB Online

“Fingir é mais do que fingir: é criar realidades novas. Fingere, do latim fingo, vem de uma voz indoeuropeia que significava esculpir o barro com os dedos. Os vasos de barro foram a primeira associação entre a técnica utilitária e o sentimento de arte. Os primitivos ceramistas, como os barristas atuais, imprimiam às peças, destinadas a recolher a água e as sementes, sua marca, nas formas e dimensões; e elas eram também os primeiros adornos. Essa preocupação está presente em todos os escultores da história, e não se afasta dos oleiros mais modestos de nossos dias. Os tijolos gregos angulares, destinados a orientar o esquadro das paredes, quase sempre trazem os nomes dos fabricantes, como se pode aferir nas ruínas do Peloponeso e da Magna Grécia. Toda a experiência posterior do homem se amarra a essa intervenção na natureza, a fim de torná-la servidora do conforto, ainda que rudimentar, de fazê-la mais bela, e torná-la, na posteridade, testemunha de seu próprio viver.

Fernando Pessoa talvez quisesse restringir aos poetas a capacidade de fingir, com seu poema conhecido, e, ao mesmo tempo, de identificar, no fingimento, a autenticidade. Mas não é só o poeta que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Todos nós somos fingidores, e prisioneiros da grande ficção da vida. E se somos todos assim, os políticos não são diferentes.

Os projetos políticos são ficcionais. Em alguns casos, ao imaginá-los, os grandes líderes os realizam. Em outros, a argila é frágil, os vasos se esfazem antes de secar-se, ou, quando secos, esfarinham-se na queima. Na atual campanha presidencial, como em todas as outras, os candidatos, sem exceção, modelam seus projetos, mas sem o engenho e a arte do passado.”
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