Meus parceiros, os urubus

Eberth Vêncio, Revista Bula

“A vida é infinitamente mais triste que boa. Vejam, por exemplo, os raros ipês amarelos que florescem em meio à estiagem. É agosto. E é como a vida. Não chove há cinco meses. O índice de umidade relativa do ar está ainda menor que a minha estima pela humanidade.

O clima quente e seco preocupa autoridades e ambientalistas, ainda mais quando as queimadas destroem o cerrado no centro-oeste brasileiro. Depois das primeiras chuvas, ainda que fracas, as plantas renascerão das cinzas, brotarão novamente da terra, como por milagre. Elas resistem ao fogo, à saga, ao espírito desbravador e destrutivo dos homens. Vejo as árvores feinhas, tortuosas e baixinhas, e me lembro do poeta Nicolas Behr: “...nem tudo que é torto é errado: vide as pernas do Garrincha e as árvores do cerrado...”.

E o que dizer dos bichos, animais encurralados, carbonizados pelas chamas, ou atropelados pelos automóveis ao cruzarem as rodovias em fuga? Há mais oferta de carniça nos acostamentos das estradas de que podem se fartar os urubus. Será que as labaredas dizimaram também estas aves da faxina? Urubus, assim como a minha fé, estariam em processo avançado de extinção? Por que o tal asteroide não nos parte logo ao meio? A vida, então, parece um mistério dos mais absurdos. Ao ponto de se acreditar que os culpados de tudo tenham sido mesmo Adão e Eva, ao descumprirem o trato com Deus e pecarem no paraíso. Por causa do vacilo, nós merecemos todas as desgraças advindas até o final dos tempos. Um final que nunca chega, apesar das garantias dos profetas e de outros seres com capacidade de enxergarem o futuro. Por que ninguém se detém no presente?

Senão, vejamos: apesar de milênios de história, o fanatismo permite que, ainda hoje, pessoas apedrejem o corpo de outro ser humano, até que ele sucumba às pedradas e pare de respirar. Através da lapidação (apedrejamento), os homens fazem justiça na Terra, quebrando um galhão para Deus.”
Artigo Completo, ::Aqui::
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