Deus, abençoe os nossos crimes!


Edival Lourenço, Revista Bula

“O Homo sapiens é um animau tão çinixtro que chega a pedir perdão pelos crimes que não cometeu. No entanto, em rituais festivos, roga fervorosamente a Deus que o abençoe, pelos crimes que de fato comete. Tentarei inicialmente justificar essas afirmativas, não com argumentos lógicos, como tem sido a praxe desta série de artigos. Mas sobretudo com uma cena que presenciei tempos atrás.

Um amigo me convidou para um churrasco na fazenda de um parente dele, que acabava de concluir uma fase importante num empreendimento agropecuário. Fomos, numa manhã de domingo. O local situava-se numa região onde eu conhecia bem e tinha para mim um alto valor afetivo, pois passara por ali a minha infância. Eu me lembrava que era uma paisagem idílica e exuberante. Um grande vale descansado, com campos limpos e arenosos a sumir de vista, entrecortados por riachos, por matas de galeria, matas de cerradão e vargedos de buritizais, povoado pelas araras, com seu festival de cores e gritos que ecoavam nas colinas levantadas aqui e ali, como espiões de torrão. No meio do cenário passava o rio, como que recolhendo em tributo as águas sempre claras dos ribeiros.

De longe já pude perceber os destroços da terra arrasada. O novo proprietário mandara passar tratores de esteira atrelados com correntes brutais sobre a vasta região. Tudo caiu por terra na mesma levada: Cerrados, matas, árvores frutíferas, buritis. Não houve respeito às nascentes, às matas ciliares, aos declives das colinas, à terras úmidas, nem mesmo reserva legal havia, onde a vista pudesse alcançar. Meu amigo me contara antes que seu parente comprara numa região inóspita uma terra de pirambeira e dera aos órgãos de fiscalização do meio ambiente como reserva legal, compensado a que ele não deixara na propriedade.

Era o jovem proprietário daquelas terras um exemplo de vida para todos. Além de um empreendedor entusiasmado, era prestativo à comunidade e temente a Deus. Fazia-se presente aos festejos o pastor do rebanho ao qual o anfitrião pertencia. Na hora que tinha de ser, um pouco depois do meio dia, fomos todos convocados para nos reunir sob uma grande tenda, próxima à casa principal. Havia muita gente, todas muito felizes, expressando votos de sucesso ao proprietário, bem como congratulações ao cheiro bom de carne assada que se espalhava a partir da enorme churrasqueira em forma de vala no chão a céu aberto, no meio do quintal, onde a sombras das mangueiras haveria de alcançar dali a pouco.”
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