Deus me livre de mim!

Edivaldo Lourenço, Revista Bula

"A razão é um atributo do Homo sapiens, uma especificação de fábrica que nos distingue da fauna geral. A razão nos leva a certas práticas que são tipicamente humanas, tais como a cultura, o desenvolvimento do conhecimento e sua acumulação, a reflexão sobre as próprias atitudes e aprender com os erros próprios e dos outros, principalmente a melhoria da condição de vida através da capacidade empreendedora. Talvez seja por isso que ainda nos primórdios da civilização essa capacidade foi reconhecida e legitimada como um mandamento divino. Daí o Deus de Abraão ter ordenado em suas primeiras manifestações formais: Crescei e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.

Este é por certo o mandamento que o homem mais vem cumprindo à risca. Até com certo garbo e arrogância. Porque aqueles outros (não matarás, não roubarás, não desejarás a mulher do próximo, respeitarás pai e mãe, não levantarás falso testemunho etc) o ser humano, como coletividade, não tem dado a mínima. E parece que enquanto mais avança no desenvolvimento das ferramentas, esses ditames ancestrais, que bem poderiam ser perenes, vão caindo no esquecimento coletivo. Já na questão de dominar a terra, de avançar sobre os bens naturais, sem ao menos os importar com os malefícios que nossas ações possam nos trazer, seja para a nossa geração, seja para as gerações futuras, temos sidos convictos, muito além da conta.

Nosso instinto empreendedor está eivado de pulsões de vandalismo. Estudos biológicos comprovam que a parte do cérebro que comanda o nosso senso empreendedor está acondicionada juntamente com resquícios evolutivos de propensão vandalista, do tempo em que as aves eram o tope da linha da criação animal. As aves são vândalas por princípio. Uma galinha, por exemplo, é capaz de jogar tudo pro alto e por terra, numa ciscação medonha, se tiver esperança de encontrar um grão que seja de cereal num ambiente. Outro dia, caminhando pelo Parque Vaca Brava, pude perceber que as flores de um ipê amarelo caiam metodicamente, uma depois da outra, numa sequência frenética e desesperada. Observei que entre a ramada havia um periquito ordinário, cortando flor por flor, numa fúria incontida. Observei, ou deduzi que ele não tirava nenhum proveito derrubando as flores daquele modo. Aquilo apenas atendia à ânsia de empreendedorismo vândalo das aves, ao instinto de promover a bagaceira. Os agricultores sabem que quando as maritacas atacam os arrozais o estrago é total. Não porque elas comem tudo, mas porque elas derrubam os cachos, comendo alguns grãos, aqui e ali. Daí ser preciso vigiar a roça com argumentos de fogos ou alguns espantalhos em forma de palhaços Tiririca, distribuídos em pontos estratégicos.”
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