A esquerda fantasma

A esquerda estadunidense é um fantasma. É evocada pela direita para rotular Barack Obama como um socialista e usada pela social-democracia para justificar sua complacência e letargia. Ela desvia a atenção do poder das corporações, e com isso, perpetua o mito de um sistema democrático que é influenciável pelos votos dos cidadãos, pelas plataformas políticas e pelo esforço dos seus representantes.

Chris Hedges, truthdig.com / grabois.org

E que mantém o mundo claramente dividido em esquerda e direita. A esquerda fantasma funciona como um conveniente bode expiatório. A direita a acusa pela degeneração moral e pelo caos fiscal. A social-democracia a utiliza para apelar à "moderação". E enquanto perdemos nosso tempo a falar bobagens, a máquina do poder corporativo está, cega, cruel e irrefletidamente, a devorar com gosto o Estado.

O desaparecimento da esquerda radical na política estadunidense tem-se demonstrado catastrófico. Noutros tempos, a esquerda abrigava desde militantes anarquistas a uma imprensa alternativa e independente, passando por movimentos sociais e políticos desatrelados do mecenato corporativo. Mas o seu desaparecimento, resultante da longa caça às bruxas anticomunista, à pós-industrialização e ao silenciamento de quem não subscreveu a visão utópica da globalização, significa que não há forças a se contrapor à nossa regressão ao neofeudalismo corporativo. Esta dura realidade, no entanto, não é exatamente palatável. Assim, as empresas que controlam a comunicação de massa conjuram o fantasma de uma esquerda, e põem nele a culpa por nossa decadência. E nos põem a falar em coisas absurdas.

A esquerda fantasma desempenhou um papel central nas ruas neste fim de semana em Washington. Teve, para Glenn Beck (1), um desempenho admirável, a tal ponto que ele o utilizou em seu próprio comício, como uma espécie de para-raios, para despertar a raiva e o medo. E essa mesma esquerda fantasma mostrou-se igualmente útil para os comediantes Jon Stewart e Stephen Colbert (2), que falaram para a multidão fantasiada de vermelho, branco e azul. Os dois comediantes evocaram o fantasma da esquerda, como os social-democratas sempre fazem, na defesa de moderação, ou melhor, apatia. O argumento que se segue é: se a direita é insana e a esquerda também, então nós, os moderados, somos os razoáveis. Sejamos bacanas. A Exxon e a Goldman Sachs, juntamente com os outros bancos rapinantes e a indústria bélica, podem estar rasgando as tripas do país, nossos direitos básicos – incluindo o habeas corpus – podem estar sendo revogados, mas não nos enfureçamos com isso. Não sejamos histéricos. Não façamos como os lunáticos esquerdistas.”
Tradução: Luiz Lima
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