Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava

Eberth Vêncio, Revista Bula

"A frase famosa (hilária, em minha opinião) é do escritor Nelson Rodrigues, um dos maiores provocadores que se tem notícia na literatura brasileira. Porque os meandros da sexualidade humana, quando não cômicos, podem ser trágicos, trágico-cômicos, dramáticos, inconfessáveis, e até mesmo insalubres. Mesmo aos que fazem sexo como quem come chuchu, o chamado coito burocrático, insosso, para se “cumprir tabela”, para se ver logo livre do outro, o ato termina em se tornar maléfico, pois diminui, humilha seus protagonistas.

Eu pensei em escrever esta crônica ao me deparar com o folder duma tal “clínica de massoterapia” dependurado na porta do carro. Pelo tamanho da bunda da “massoterapeuta”, percebia-se que a “massagem” era proibida aos menores de dezoitos anos. Mas a ingenuidade ainda insiste em fazer morada no coração manso e na mente sonsa de muitos adultos. Foi assim com Agamenon, o escriturário.

Desavisado, Agamenon, filho único, chegou ao endereço que constava no cartão de visitas, empurrando a mãe numa cadeira de rodas. Arrebatada por uma doença neurológica irreversível, a pobre senhora penava na condição de completa dependência da boa vontade de terceiros para as necessidades mais fundamentais de um bípede mamífero, como se alimentar, tomar medicamentos e expelir pelo ânus, poros e uretra tudo o que entra pela boca.

“Massagem terapêutica e relaxante” era o que dizia o cartão. Quando adentrou na “clínica”, uma cínica clínica, diga-se, o constrangimento foi mútuo. A ousada atendente (estilo índia amazonense ninfomaníaca sem frescura e que quer ser a sua namoradinha) corou, mas sorriu aos futuros clientes. A senil enferma, impedida pela paralisia facial resultante da moléstia, riu por dentro, divertindo-se com a situação constrangedora, com a estultícia do filho solteirão, e com a própria desgraça.”
Artigo Completo, ::Aqui::
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