Sintomalogia de uma foto

Muniz Sodré, Observatório da Imprensa / Envolverde

“Alto, forte, de uniforme preto semelhante aos dos colegas, o policial (do Bope, do Core, não se pode saber) carrega às costas, ao lado do moderno fuzil-metralhadora, uma enorme perna artificial. Parece pesada, como sugere a leve curvatura dos ombros do seu portador. [A fotografia acima descrita apareceu na internet e em jornais de pequeno porte, em meio às centenas e centenas de imagens estampadas durante a cobertura jornalística da tomada do Complexo do Alemão, o famigerado reduto dos traficantes de drogas, pela operação policial, veiculada com inédito destaque na mídia brasileira e internacional.] Acontece com certa freqüência nas coberturas de grandes eventos, guerras ou catástrofes que uma única fotografia ancore visualmente toda a carga dramática da narrativa midiática. São inúmeros os exemplos, mas até hoje permanece nas retinas de quem tinha idade para acompanhar o noticiário da Guerra do Vietnã a imagem do chefe de polícia de Saigon executando com um tiro na cabeça o jovem vietcong, ainda de mãos amarradas. A foto chocou a opinião pública mundial, muito mais talvez do que os relatos circunstanciados dos combates, em que se morria aos magotes. Seria possível, quem sabe, pensar-se na foto da bandeira nacional hasteada no alto do morro pela polícia como uma imagem representativa da reconquista do Complexo do Alemão pelas forças da ordem. Mas não: essa imagem é um tanto banal, por sua recorrência em outras situações de conflito tanto em episódios de controle da criminalidade interna quanto em batalhas remotas. Além disso, seria eticamente injustificável sugerir, com a ostentação midiática da bandeira, o triunfo puro e simples do Estado sobre apenas uma parcela do tráfico de drogas. Vítima como cúmplice Sim, porque o tráfico, como todo negócio de mercado, supõe oferta e consumo, acionados pela livre vontade dos sujeitos da troca.

A bandeira no alto do Alemão sinaliza apenas o lado da oferta – dos vendedores, em suma. Para se justificar moralmente, o verde lábaro teria que ser hasteado também no asfalto, nos bairros de classe média que, à noite, "brilham", como já ironizou um chefe de polícia carioca. Melhor ainda: deveria ser hasteada pelos responsáveis uma bandeirinha na janela de cada apartamento que pudesse proclamar-se livre do consumo desse produto prodigiosamente elástico do ponto de vista da formação de preços e da obtenção de lucros, que é a droga. Assim como na Idade Média européia uma residência podia sinalizar em sua porta que não fora contaminada pela peste negra – a grande dizimadora de populações, fora a guerra –, na Idade Mídia [termo cunhado pelo professor baiano Albino Rubim] em que vivemos, a peste negra é a droga, e não apenas o estupefaciente químico ou vegetal, mas a relação social de droga, induzida pela falência dos valores, pelo extermínio do sentido coletivo e pela metástase consumista. A droga implica um crime em que a vítima é cúmplice do criminoso. É impossível acabar com ela, como proclamam os decadentes nostálgicos da romântica grass dos anos 1960 e 70? Mas então por que tentar acabar com o câncer, a Aids, as pestes? A droga é a peste negra que retorna.”
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