Caminhando e cantando


Menalton Braff, Revista Bula

“Continuo caminhando, apesar de todas as minhas objeções muito bem fundamentadas, porque ninguém pode ficar parado. Se o espírito já voa devagar, nada melhor do que botar o corpo em movimento. E para que a sensação de perda (de tempo) não me estrague o dia, como às vezes acontece a qualquer vivente, abro olhos e ouvidos bem abertos e colho em minha tarrafa peixes de todo tipo e tamanho.

Ontem cruzei com um velhinho de outros tempos, que já viu e viveu até o que não existe mais, a não ser nele mesmo. Pelo menos foi essa a idéia que me ocorreu quando o ouvi gritar, em plena avenida: veeeer-durei-rooo. A melodia de sua voz, bem, não há como reproduzi-la aqui, mas é a mesma que, resistente, também vem atravessando a bruma dos tempos. Oh, já ouvi essa mesma canção quando adolescente, num dia em que estava namorando na praça, os livros em uma das mãos e o coração na outra. Depois de ter feito minhas primeiras barbas, ela, a melodia, me tirou da cama em uma manhã de domingo, quando me agradaria muito corrigir os excessos da noite levantando só depois do meio-dia. Na medida em que os anos me ressecavam a pele e branqueavam o cabelo, esses apelos foram sumindo, cada vez mais esmagados pelos modernos supermercados. Os velhinhos vendendo nas ruas, aposentados ou não, iam perdendo sua razão de existirem.”
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