Gente, eu sou transexual


Eberth Vêncio, Revista Bula

“É incrível como a arte, de maneira geral, pode modificar substancialmente a vida de um ser humano. Não vale para qualquer arte (há muitos “artistas” presunçosos ocupando os órgãos de sentido dos outros com suas belas porcarias), nem para qualquer vida de qualquer ser humano. E quando não muda uma vida, a arte pode, ao menos, reinventar um dia, transformar uma tarde, aquecer uma noite, sei lá.

Por exemplo: conheço um sujeito que se casou com uma prostituta, após assistir a um seu striptease. Não que ele ficasse apenas intumescido da cintura para baixo, como sói ocorresse à maioria. Não. É que ele enxergou nos olhos da moça (foi isto o que mais lhe chamou a atenção: o brilho triste no olhar) toda uma ternura e sofrimento que nenhum dos outros homens ali presentes sequer suspeitava. Enfim, era só o amor brotando de onde menos se esperava.

Há quem se comova com uma composição de Beethoven ou fique paralisado frente a uma tela de Salvador Dali, são coisas que sucedem às pessoas sensíveis, é o que se diz. Mais manso, contudo, é aquele que se emociona e chora ao testemunhar a chuva pulverizando a relva. Só isto. Este, sim, se existir um céu, se houver a chamada justiça divina ao apagar das luzes, vai entrar pelo portãozinho lateral, sem o dispositivo de apresentar credenciais, e sob as trombetas dos anjos. Seres afáveis dispensam “carteiradas”.

Faço todo este confuso preâmbulo pseudo-antropológico para enaltecer, especificamente, o poder de transformação da literatura, qualquer boa e singela forma literária, até mesmo uma frase criativa escrita em português errado no pára-lama de caminhão. Que leitor sai incólume da leitura, por exemplo, de “ Grande Sertão: Veredas” do médico escritor Guimarães Rosa e “Evangelho Segundo Jesus Cristo” do ateu José Saramago?”
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