Para que lado sopra o futuro

Urariano Motta, Direto da Redação

“Houve um tempo em que o socialismo era o destino infalível, uma poderosa força da natureza, o destino último e de redenção de todos os povos. Tão forte era esse destino, e tão determinado e inescapável o seu realizar, que alguns de nós chegamos a pensar que o capitalismo cairia de podre. Outros, mais artísticos, julgávamos que a nova humanidade viria como uma metamorfose natural, da crisálida morta para a borboleta rubra. Esse futuro passou. Houve um tempo em que o futuro era a paz idílica, sentimental, onde todas as feras passeariam ao lado de mansas ovelhas, em concórdia. Esse futuro é passado.

Houve um tempo em que o amor era a resposta certa e fraterna a todas vilezas do homem. Mais que uma resposta, o amor era a solução, a insígnia, a bandeira contra todos os canalhas humanos, muito humanos, demasiadamente humanos. Esse futuro é pretérito. Houve um tempo em que a simples visão da flor, da orquídea, da cornucópia de pétalas nos jardins, deixava prenhe o peito de um sentimento bom, de alegria, de felicidade, a ponto de suavizar o semblante, de amolecer os músculos, de fazer úmidos os olhos. Esse futuro é perfeito passado. Houve um tempo em que a fé e a crença nas palavras, no seu poder de fogo, na sarça que ardia como nos dez mandamentos, sintetizados neste impositivo supremo, homem, fala a verdade, só a verdade, nada mais que a verdade, homem, fala, que o céu será teu, o céu e toda a riqueza do mundo, fala. Esse futuro é mais que perfeito passado. O futuro de coisas extraordinárias, imarcescíveis, murchou. O maravilhoso rascunho, bosquejo de possibilidades elevadas ao sonho, é pretérito. Então, que futuro nos resta? Que impossíveis paraísos são possíveis? Pior, que prováveis infernos o vento sopra?

Os jovens mais sensíveis, os jovens mais sensíveis e angustiados, perguntam-nos: o senhor acha que ainda é possível um golpe de Estado no Brasil? E na América Latina? – Não sei, não sabemos, é o que nos vem. Quem sabe é o vento, dá vontade de responder. Mas só o dizer “não sei” para eles é motivo de espanto. Entendemos a razão. Os jovens confundem cabelos brancos com sabedoria. Talvez nem saibam que os idiotas também amadurecem, nas cãs. Talvez nem percebam que esse pesadelo do golpe nos acompanha todas as noites, como um ente amado de sinal invertido. Pois o que são os pesadelos senão um estimado irmão contra nós? Um inimigo íntimo, indissolúvel? Um jogo de dados onde está inscrito “foste derrotado”, um resultado que buscamos?”
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