Duros tempos da vida moderna

Elisa Andrade Buzzo, Digestivo Cultural

“O coração bate mais forte, as pupilas se dilatam, as mãos se movimentam em manobras precisas e ele solta um urro de satisfação. Tal qual tubarão rondando sua presa submersa, pois estamos realmente mergulhados, não no mar, mas na terra úmida, cercados de tubos, canos, concreto, cancelas, levemente asfixiados pelo pesado ar subterrâneo, pressentimos quem sai da toca, se aproxima, para então abocanhar a fina mercadoria prestes a ser liberada: uma vaga!

Antigamente, mas nem tão antigamente assim, a situação era diferente ― os estacionamentos dos shoppings eram amplos, ao ar livre e gratuitos. Aliás, parece que foi no Paleolítico que nosso ancestral nômade, um caçador disputando por espaços privilegiados, comportava-se de forma mais agressiva e instintiva. O que aconteceu então para essa volta ao passado? O que fez de nós vorazes perscrutadores de vagas de estacionamento de shopping?

O paulistano frequenta cada vez mais suas praias artificiais, assim como o número delas na cidade nos últimos anos só fez aumentar. E do mesmo modo as expansões dos shoppings centers estão acontecendo, sujeitas a mais expansão ainda. Só que tudo isso se deu sem o aumento do número de vagas de estacionamento. Até mesmo os shoppings interligados em estações do metrô têm seus parques lotados.

A mania VIP é mais uma idiossincrasia a ser considerada de tais estacionamentos. O espaço para essas vagas ― com manobrista, sala de espera, parede de MDF, e o que mais inventarem para justificarem o preço e a exclusividade de serviços irrelevantes ― aumentou, em detrimentos daquelas dos pobres mortais. Nada mais justo numa sociedade marcada pela concentração de renda ― tirar da cesta dos pequenos para colocar no saco dos grandes, afinal não há batatas em abundância para todos. Para começo de conversa, logo que o homem atual emboca o carro na entrada do estacionamento ele se dá conta de que acaba de ser relegado a uma segunda categoria. Pois se nos trens, navios e aviões há a primeira e a segunda classe, por que nos estacionamentos não haveria essas distinções que o dinheiro trata de enaltecer? Assim, enquanto alguns tem a sua caverna muito importante, outros neandertais vociferam na louca caça por abrigo.”
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