Quer que cospe ou engole?


Eberth Vêncio, Revista Bula

" — Quer que cospe ou engole?", ele disse, concluindo a piada.

As gargalhadas cortaram o ambiente enfumaçado do botequim, aumentando ainda mais a zoeira que já deixava o local deveras tumultuado, principalmente a quem se mantivesse sóbrio. Era o caso dele, que sempre fora um bundão (assim são chamados os otários que seguem regras e leis), e jamais dirigia após ter bebido.

Aliás, a chamada Lei Seca no trânsito parece transformada noutra piada brasileira de mau gosto (lembram-se daquela que exigia kits de primeiros socorros nos portas-luvas de todos os carros? Na época, muita gente agradecida subiu na vida fabricando gaze e esparadrapo... Caixinha, obrigado!), já que as autoridades se cansaram de fiscalizar, a não ser quando um motorista bêbado atropela pessoas na calçada ou entra com carro e tudo pela vidraça de uma locadora de vídeos.

Sentiu certo nojo ao meditar sobre a piada espermática que o sujeito acabara de contar. O correto, de acordo com a gramática portuguesa, seria “Quer que eu cuspa ou engula...”, ele raciocinava, silenciosa e bestamente, pondo reparos onde não devia, como se piadas seguissem normas gramaticais, dogmas religiosos, preceitos morais. Os discursos políticos, estes sim, até para servirem de exemplo, deveriam respeitar todas as normativas, com o orador vigiando plurais, concordâncias, discordâncias e a saga pessoal pelo dinheiro. Se bem que muitos discursos (e muitos políticos também) se constituam verdadeiras piadas sem a menor graça. Por que votar em bestas quadradas?! Bem feito...

Na verdade, nem se tratava, propriamente, de um chiste, mas de “um causo baseado em fatos reais” (deu pra perceber nitidamente que o sujeito estava sendo irônico ao descrever um episódio da sua vida pregressa), uma aventura protagonizada na chamada boca do lixo de um antigo bairro da capital, reduto freqüentado por boêmios, viciados em drogas, escritores medíocres ou geniais em busca de reconhecimento, prostitutas, garotos de programa, gente pobre e gente rica, territórios marginais razoavelmente separados por limites invisíveis muito bem conhecidos pelos frequentadores contumazes.”
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